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domingo, 8 de dezembro de 2019

INVEJA: UM SENTIMENTO MALÉFICO

Invejosos são como cobras que estão sempre prontas para destilar seu veneno maléfico. Os invejosos estão ao nosso redor: vizinhos, no ambiente de trabalho, na família, na igreja, etc. 
Quem é o invejoso? É alguém que nunca está feliz com o sucesso do outro. O invejoso é um fracassado que não aceita o sucesso de outra pessoa. Ele quer ser como o outro, mas como não consegue, movido por um sentimento inconsciente de raiva, trama a destruição do seu imaginário concorrente.
Como identificar um invejoso? Conte seus sonhos e realizações. Se a pessoa demonstrar raiva, tristeza, se agir com críticas destrutivas, você está diante de um invejoso. Um exemplo da Bíblia é a história de José. Quando o mesmo contou sobre seu grandioso sonho, os irmãos, com inveja, tramaram sua destruição.
Como livrar-se dos invejosos? É simples. Nunca fale sobre seus sonhos ou sobre suas conquistas.
O invejoso é alguém digno de misericórdia, pois é um infeliz que precisa libertar-se de um sentimento que destrói a si mesmo e o outro.
Tenha muito cuidado com os invejosos ao seu redor, pois eles são perigosos como as cobras.

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Lúcio Rufino Pinheiro

DOGMA DA IMACULADA CONCEIÇÃO (DEBATE)



Paulo diz em Rm 3.9: "Pois acabamos de provar que TODOS, tantos os judeus como os gregos, estão debaixo do pecado". É possível conciliar a mensagem bíblica com o dogma da Igreja Católica Romana que diz que Maria foi PRESERVADA do pecado original?

- Alfa: “Paulo está se referindo às regras e não às exceções: sua mãe é uma exceção”.

- Uma boa interpretação do texto bíblico não pode desconsiderar seu sentido próprio, literal. O texto de Romanos 3 não menciona exceções, pois se refere a nossa condição humana de pecadores. Nesse sentido, TODOS pecaram e necessitam da graça divina.

- Alfa: “Toda criatura é pecadora?”

- Toda criatura humana foi contaminada pelo  pecado. Maria é  uma criatura humana. Logo, Maria    foi concebida em pecado. 
Jesus veio salvar o pecador. Se considerarmos como verdadeira a premissa que Maria não tinha pecado,  teremos que aceitar como verdadeira a conclusão que  Maria não precisava de um Salvador.

- Alfa: “Ora, também as criancinhas aquém da idade da razão não se excluem na regra geral que todos pecaram”.

- As crianças se incluem no “todos pecaram”, pois elas herdaram o pecado de Adão. Disse Davi: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado concebeu minha mãe” (Sl 51.5). A própria doutrina Católica reconhece que as crianças têm o pecado original.

- Alfa: “Nos capítulos 1 a 3 de Romanos, o Apóstolo Paulo está tratando de pecados pessoais, obviamente, as crianças recém-nascidas não estão incluídas”.

- Rm 1 a 3 fala da depravação  total do homem, assim sendo, e as crianças estão incluídas.  Pecado aqui não deve ser entendido apenas como transgressão moral, mas como realidade que faz parte da nossa natureza decaída. Nós não  somos pecadores porque cometemos pecados, mas cometemos pecados porque somos pecadores. "Pois já temos demonstrado que todos, judeus e gregos, estão debaixo do pecado" (Rm 3.9). "Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus" (Rm 3.23). Todo pecado pessoal cometido tem sua causa na nossa natureza pecaminosa. Rm 5.12, Paulo trata do pecado que todos herdamos: "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram". Da mesma forma que a graça inclui todos: "Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida" (Rm 5.18). Aqui não se fala de pecados pessoais, mas do pecado que levou a todos à condenação .

- Alfa: “A vontade, sustentada pela graça, pode tomar a decisão de não pecar?"

- A graça ajuda a pessoa a resistir ao pecado. No entanto, deixar de pecar é impossível, a não ser após a morte. A Bíblia diz: “Porque sete vezes cairá o justo e se levantará” (Pv 24.16).
Paulo é claro sobre o poder do pecado que habita em nós: “porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero. Mas, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim, o pecado que habita em mim” (Rm 7.19-20). Após o pecado original a nossa vontade com relação às realidades espirituais, amor e temor a Deus, foi corrompida, de forma que, somente pela fé em Cristo, favorecido pela sua graça, o homem pode viver reconciliado com Deus. Somos pecadores. Por mérito próprio, jamais podemos viver na presença de Deus. Agora, cobertos pelo manto da graça, o pecado vai perdendo sua força, de modo que, com o passar do tempo, vamos progredindo na vida nova em Cristo.


- Alfa: “Na sua ótica então até Jesus pecou. Todos são todos”.

- Pelo contexto do texto mencionado e pelo conjunto das Escrituras, não cabe essa interpretação. Jesus não se encaixa no todos por uma simples razão: Ele não assumiu a nossa natureza humana decaída, mas nossa natureza perfeita, como Deus a criou. Jesus foi igual a nós em tudo, exceto no pecado (Cf. Hb 4.15). Com relação à Maria é diferente. Ela herdou a natureza humana corrompida pelo pecado. Portanto, ela não pode ser uma exceção. Se Maria se incluir na exceção, teremos que concluir que ela não precisava da graça salvadora de Cristo. O que não é verdade.

-Alfa: “Jesus é imaculado por natureza, pois Ele é Deus. Maria é imaculada pela graça. Portanto, sem a graça de Deus, Maria não teria sido preservada do pecado original”.

- Quanto ao fato de Jesus ser imaculado por natureza, estamos de acordo. Porém, não posso afirmar o mesmo sobre Maria. Mesmo que seja pela graça, não podemos afirmar que Maria é a Imaculada Conceição, pois, em nenhuma passagem da Escritura temos o testemunho de que, por graça, Maria foi preservada do pecado original. A graça veio para todos em Jesus. Ela nos oferece condições de ser salvos, de superar as tentações. Porem, não retira de nós a possibilidade de pecar, pois nossa natureza se encontra decaída pelo pecado. A experiência é testemunha que não deixamos de pecar mesmo depois de recebermos a graça salvadora, pois, esse favor imerecido, não anula nossa natureza pecadora. Assevera Paulo: “Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim” (Rm 7.20).

- Alfa: “Todo dogma é verdadeiro para a Igreja, do contrário não seria dogma”.

- Todo dogma é verdadeiro para quem? Para toda a Igreja de Cristo? De forma alguma.  Muitos dogmas que foram determinados pela Igreja Romana e por outras igrejas não têm aceitação de todos os que pertencem à verdadeira Igreja, pois não são respaldados nas Escrituras, mas em tradições humanas.  O dogma da Imaculada Conceição foi instituído em 1854 pelo papa Pio IX, ou seja, por mais de mil e oitocentos anos nunca foi uma verdade de fé obrigatória e inquestionável.  

- Alfa: “O dogma da Imaculada Conceição tem base na interpretação bíblica da Tradição da Igreja”. E a Interpretação da Bíblia dos Padres da Igreja é plenamente confiável".

- Toda verdade de fé deve ser fundamentada na Bíblia e não apenas em interpretações da Tradição.  Você destaca a importância da Tradição e do Magistério para a interpretação da Bíblia. Os padres da Igreja deram grande contribuição para hermenêutica bíblica. No entanto, alguns cometeram erros na interpretação bíblica. Tomemos como exemplo o texto de Pv 8.22. Jerônimo cometeu um equívoco ao traduzir "intencionalmente" na Vulgata o termo hebraico "qânanî", criou/criar das Escrituras Hebraicas e εκτισεν da Septuaginta como "possedit me" (possuiu-me/adquiriu-me), adulterando assim o sentido original do texto hebraico, apenas para combater o arianismo, ou seja, para fazer um ajustamento do texto bíblico com a doutrina Católica. Poderia citar outros textos que Jerônimo adulterou, mas vou ficar somente com o texto de Provérbios. A "boa intenção" de Jerônimo não deve ser elogiada, mas, pelo contrário, deve ser reprovada, pois convém que o tradutor seja fiel ao texto original. Com uma boa exegese é possível compreender Pv 8.22 sem necessidades de adaptações ou traduções inadequadas do texto.
Assim, o argumento que o dogma da Imaculada Conceição deve ser aceito com base na interpretação bíblica da Tradição não se sustenta, pois, como apresentamos no exemplo acima, os Padres da Igreja  nem sempre fizeram interpretações bíblicas confiáveis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não parece estranho que o dogma da Assunção não tenha sido definido por nenhum dos Concílios da Igreja dos primeiros séculos? Por que um fato extraordinário, como o da “Imaculada Conceição de Maria”, não foi tratado em nenhum dos escritos dos apóstolos? São questões para reflexões.

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Lúcio Rufino Pinheiro

DIVINDADE DE CRISTO (DEBATE)


A “expressão “Eu Sou” (ἐγὼ εἰμί ) que se encontra em Jo 8.58 e em outros textos,  tem relação com a revelação divina a Moisés (Cf. Ex 3.14). Diz respeito à natureza divina.  Se não diz respeito à natureza divina,  questionamos:
1.       Por que os judeus ficaram revoltados com Jesus ao usar a expressão “Eu sou” (Cf. Jo 8.21-59)?
2.       Por que os guardas “recuaram e caíram por terra” (Jo 18. 5-7) quando Jesus disse sou eu (em grego, ἐγὼ εἰμί  - eu sou)?

3.       Segundo Jo 9.38, o cego curado adorou Jesus. Se Jesus não é Deus, por que não reprendeu o cego que fez uma atitude de adoração que só compete a Deus?
4.       O que significa a expressão: “eu e o Pai somos um?” (Jo 10.30);
5.       O que significa a expressão: “O pai está em mim, e eu estou no Pai”? (Jo 10.38);
6.        O que significa a confissão de fé de Tomé, “Senhor meu e Deus meu” (Jo 20.28)? Se Jesus é Deus, por que o mesmo não corrigiu Tomé ao chamá-lo de Deus e Senhor?

MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO
O mistério da encarnação consiste em afirmar que Deus encarnou-se, assumiu a natureza humana de forma que na pessoa do Filho, permanecem as duas naturezas, divina e humana. Querer separar as naturezas de Cristo é uma heresia, combatida desde os primeiros séculos do Cristianismo. A Palavra diz que Jesus é Deus encarnado, "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós..." (Jo 1.1,14); e "porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl 2.9). Jesus, portanto, plenamente Deus e plenamente homem. Na profissão de fé de Tomé é também revelada a divindade de Jesus: "Respondeu-lhe Tomé: Senhor meu, e Deus meu!" (Jo 20.28). 1Jo 5.7: “Pois há três que dão no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um só”;Em 1Jo 5.20, sobre Cristo, diz: “Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna”.

“FILHO DE PEIXE, PEIXINHO É”
“Sou filho de Deus, logo sou Deus”; “Anjos são filhos de Deus, logo são de natureza divina”, argumentam os que negadores da divindade de Cristo.
Com relação ao argumento dos que negam a divindade de Cristo, refutamos com os seguintes argumentos:
As premissas estão erradas. Não somos filhos legítimos de Deus, mas adotados. Somos filhos no Filho (dimensão espiritual). Filho legítimo é só Jesus. "E nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade" (Ef 1.5). A carta de São Paulo aos Gálatas nos deixa bem claro: “porque todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo” (Gl 3.26).
Sobre os anjos como filhos de Deus, refutamos: anjos são criaturas de Deus, seres espirituais. Não são chamados filhos de Deus e nem têm atributos divinos. O que é criado é inferior ao que cria. Anjos não têm a mesma natureza divina. Somente o Pai, o Filho e o Espírito Santo têm a mesma natureza, ou seja, a divina. Repito: Filho legítimo Deus só tem um: Jesus.

JESUS É O FILHO, OS ANJOS SÃO MINISTROS
"Mas do Filho diz: O teu trono, ó Deus, subsiste pelos séculos dos séculos, e cetro de equidade é o cetro do teu reino"(Hb 1.8).
O texto de Hb 1.8 cita o salmo 45.6-7. O rei mencionado pelo salmista é humano, no entanto, é tratado como o Deus verdadeiro: "o teu trono ó Deus é para todo o sempre" (v.6). O autor da Carta aos Hebreus aplica o salmo para demonstrar a divindade de Cristo e sua superioridade em relação aos anjos. Por que autor escolheu esse texto do salmo e não outro? Não sei. O texto hebraico usa o termo elohim. No texto de Hebreus, o termo usado é θεός (Deus): "Ο θρόνος σου ό θεός " (o teu trono, ó Deus). A tradução "Deus é o seu trono" não parece adequada, pois, no texto grego, não tem o verbo ser (εστίν - é ), mas apenas o pronome σου (teu).

EM QUAL NATUREZA JESUS FOI,  POR UM POUCO, MENOR QUE OS ANJOS?
 “Fizeste-o, por um pouco, menor que os anjos” (Hb 2.7).
O texto de Hebreus 2 não trás a "expressão natureza humana", mas pelo contexto entende-se que está falando do Cristo em sua humanidade. Jesus foi menor que os anjos em sua humanidade. Antes de sua ressurreição e ascensão (sua glorificação) Jesus escolheu não demonstrar seu poder divino a todo momento, por isso, apresentou-se menor que anjos. O versículo 17 diz que "convinha que, em todas as coisas, se tornar-se semelhante aos irmãos". Mas, sendo pessoa divina, Deus sujeitou todas as coisas ao Filho "debaixo de seus pés" (Hb 2.5,8). Hb 1.3 diz que após a purificação dos pecados, Jesus tornou-se "tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles".

JESUS ACIMA DOS ANJOS
No que diz respeito a sua divindade, Jesus está acima dos anjos e é mais excelente (Hb 1.4), pois "todas as coisas estão debaixo de seus pés (Ef 1.22). Ele está acima de tudo, pois nele e por ele foram criadas todas as coisas. Está escrito: "o qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele subsistem todas as coisas" (Cl 1.15-17). Depois de subir aos céus , a natureza humana de Jesus é revestida de glória, assim como a nossa será após a ressurreição (Cf. Rm 8.30).

JESUS ABANDOU A NATUREZA HUMANA APÓS SUA MORTE?
Uma vez que Jesus se encarnou, assumiu nossa natureza humana para sempre. A segunda Pessoa possui as duas naturezas também na eternidade.  A Bíblia diz que Jesus é Senhor (Divindade) e que ressuscitou dos mortos (humanidade)(Cf. Rm 10.9). As realidades divina e humana continuam unidas em uma só Pessoa.

CONSIDERANDO QUE NÃO HÁ SEPARAÇÃO DAS NATUREZAS DIVINA E HUMANA DE JESUS, DEUS MORREU OU NÃO NA CRUZ?
 Para a fé cristã, as naturezas divina e humana estão unidas em uma só pessoa  (União hipostática) Jesus é totalmente Deus e homem. Na cruz, o Deus  encarnado é humilhado, torturado e morre. "O qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar,   mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens;  e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu o nome que é sobre todo nome" (Fl 2.6-9). Morrer, para a fé cristã não significa que deixou de existir. Por isso, a sua ressurreição é sinal que a vida continua, que a morte não é fim. Isso é uma questão de fé, o homem apenas racional não entenderá jamais. Paulo diz: "Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus. Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, E aniquilarei a inteligência dos inteligentes.  Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1.18;22-25). 
Judeus e gregos jamais entenderam a ideia que Deus pudesse se encarnar e morrer. A encarnação e morte de Deus eram escândalo e loucura para os judeus.  Parece que também para alguns cristãos. 
A morte de Cristo  não é derrota, fim, fracasso, mas vitória contra o mal, redenção, libertação, elevação, glória.  Paulo diz: "Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo" (Gl 6.14).
Portanto, a morte de Deus não significa aniquilamento da natureza divina de Jesus, o que impossível, mas sim, que o Verbo Encarnado experimentou a realidade da morte. Assim, como a natureza humana e a natureza divina estão unidas em uma só Pessoa é correto afirmar que Deus morreu na cruz, pois Jesus é Deus.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
 Pra quem nega que o Filho tem a mesma essência (natureza) do Pai, convém lembrar o que diz João: "Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse mesmo é o anticristo, esse que nega o Pai e o Filho.  Qualquer que nega o Filho, também não tem o Pai; aquele que confessa o Filho, tem também o Pai" (1Jo 2.22,23).

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Lúcio Rufino Pinheiro

sábado, 7 de dezembro de 2019

SUBSTANTIVO ANARTRO PRESENTE EM JO 1.1



Em Jo 1.1 está escrito: “και θεος ην ο λογος” (“e o Verbo era Deus”). Na Tradução do Novo Mundo, lemos: “e a Palavra era um deus”. Esta tradução está correta?
Segundo os que defendem que a tradução mencionada está correta, o substantivo Deus (θεος) é anartro, ou seja, vem desacompanhado do artigo. Assim, nesses casos, “θεὸς” deve ser traduzido indefinidamente (um deus), pois não se refere ao Deus Pai, mas a um deus.  Os que usam desse argumento gramatical, justificam que Jesus não é Deus, mas simplesmente um ser divino, uma espécie de outro deus intermediário entre Deus (Pai) e a humanidade.

REFUTAÇÃO:
1)      O substantivo “θεος” (Deus) é usado mais de 1319 vezes (aproximadamente) no Novo Testamento, sendo que, em mais de 283 casos, mesmo aparecendo sem o acompanhamento do artigo, faz referência a Deus como ser definido.
2)      A ausência de artigo não exige que um substantivo seja traduzido no seu sentido indefinido. Vejamos alguns exemplos:
a)      Rm 9.5 - “θεος” (Deus), não vem acompanhado do artigo, mas trata-se de Deus (Senhor, Jeová, Javé). Aqui, os que defendem o argumento do substantivo anartro, se contradizem, pois não traduziram “θεος” como “um deus”, mas como Deus, como mostra a Tradução do Novo Mundo: “Deus que está sobre tudo”;
b)      2Cor 2.21: “θεος” aparece sem artigo, mas com certeza, diz respeito a Deus Pai. Mais uma vez, aqui também, não traduzem como “um deus”: “e quem nos ungiu, é Deus” (TDM);
c)       Fl 2.13 – Aqui, mais uma vez, o substantivo “θεος” é anartro, mas não é traduzido segundo a regra dos que defendem que não se trata de Deus, mas de um ser divino: “pois Deus é aquele” (TNM);
d)      1Ts 2.5 – “θεὸς μάρτυς” (Deus é disto testemunha”). O substantivo Deus (θεὸς) não é acompanhado de artigo no grego, no entanto, a Tradução do Novo Mundo, também não traduz “um deus é testemunha”, mas,  “Deus é testemunha”;
e)      Jo 1.18- “Ninguém jamais viu a Deus (θεὸς), o Deus (θεὸς) unigênito (μονογενὴς)  que está no seio do Pai, é quem o revelou”. No texto grego, não aparece o artigo precedendo o substantivo “θεὸς” nas duas ocorrências.  No entanto, a Tradução do Novo Mundo, traduz o primeiro termo como Deus, se referindo ao Pai, e o segundo como “o deus”, se referindo ao Deus unigênito, Jesus: “Nenhum homem jamais viu a Deus; o deus unigênito, que está ao lado do Pai, é que O revelou”.
O referido texto é uma das provas da divindade de Cristo. A expressão “unigênito”, em grego “monogenes” (μονογενὴς), explicita a divindade de Cristo e sua origem do Pai, de tal forma que, como disse Jesus para Filipe, “quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9). Fica evidente que, ao traduzir equivocadamente o substantivo anartro “θεὸς” como “o deus”, há uma intenção ideológica para sustentar a negação da divindade de Cristo.
3. Em outras passagens, o substantivo anartro “θεὸς” aparece nos seguintes modos: Relação de contraste ( Rm 7.8; Mt; 4.4; Mt 6.24; Lc 12.21; At 5.29); Quando é usado pela voz de judeu  e pagãos ( At 12.22; At 28.6; At 14.11; Jo 9.16; Jo 10.33;); Em nomes próprios ou títulos( Mt 5.9; Jo 1.12; Rm 8.14; Mt 14.33; At 7.43, Mt 4.9; Mt 4.10); Em questões sobre a divindade (Rm 1.16; Rm 1.17; Rm 1.18; Rm 13.1; Rm 16.27; 1Cor 8.4; 1Cor 8.5; 1Cor 8.6).  São apenas alguns textos dentre tantos outros em que o substantivo Deus não é acompanhado por artigo e nem por isso é traduzido de forma indefinida.

Portanto, pelos exemplos apresentados, constata-se que o argumento defendido pelos que negam a divindade de Cristo, a saber: onde aparece o substantivo anartro, “θεὸς” deve ser traduzido por “um deus” não tem sustentação segura. Assim, no texto de Jo 1.1: “e o verbo era Deus”, o substantivo “θεὸς” refere-se a “Deus” na pessoa de Jesus e não a “um deus” indefinido.

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Lúcio Rufino Pinheiro

DIA DO SENHOR (DOMINGO)


"Ninguém, pois, vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombras das coisas vindouras; mas o corpo é de Cristo" (Cl 2.16-17).
O que Paulo quis dizer com "sombra das coisas vindouras"? O que haveria de vir? E de quem é a sombra no texto?
Paulo combate a heresia existente entre os colossenses. Adverte os cristãos de Colossos “para que ninguém vos engane com raciocínios falazes” (Cl 2.4).  Essa heresia tinha relação com práticas judaicas como circuncisão (Cl 2.11), festas (Cl 2.16) e alimentos e vestimentas (Cl 2.20-22). Os versículos 16 e 17 do capitulo 2, tratam da advertência de Paulo sobre o cerimonialismo. Especificamente, o versículo 16 faz referência a um calendário de culto: “dias de festa”, “lua nova”, “sábados”.  Por mencionar o “sábado”, tudo indica que existia algum aspecto judaico na heresia colossense. No versículo 17, Paulo diz que “tudo isso”, as práticas cerimonias, “tem sido sombra das coisas que haviam de vir”. Paulo, em Rm 15.4 e 1Cor 10.1-11, afirma que tudo o que foi escrito, ou seja, o Antigo Testamento, tinha como finalidade nos ensinar, de nos deixar exemplos , de nos advertir  de forma que não repitamos os mesmos erros do povo da Antiga Aliança. Tudo o que foi escrito encontra seu sentido completo, pleno em Cristo. “O corpo é de Cristo” (Cl 2.17). Paulo usa o termo σῶμα (Soma). Aqui tem sentido figurado daquilo que é real, total, completo, ou seja, a realidade encontra-se em Cristo. Em Cristo, através de sua encarnação, “nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” (Cl 2.9). Diante da realidade que é Cristo, plenitude da Divindade, todas as cerimonias podem ser omitidas e ninguém pode ser julgado se não praticá-las (Cf. Cl 2.16), pois elas são apenas “sombras”, em grego, σκιὰ (skia), que significa: sobra, obscuridade, trevas, aparência, coisa sem valor (Cf. texto grego: Mt 4.16; Lc 1.79; At 5.15; Hb 8.5).
Portanto, em Cristo, aquele que havia de vir, tudo encontra seu sentido pleno. As cerimônias, inclusive a guarda do sábado, são sombras, diante de Cristo. Depois do Evangelho, Cristo encarnado, todas as práticas cerimoniais antigas são ressignificadas ou até mesmo podem ser omitidas sem que sejamos julgados por isso. “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão” (Gl 5.1).

DISTANCIAMENTO DA GUARDA DO SÁBADO
No Antigo Testamento Deus descansou de suas obras. No Novo Testamento, Deus continua trabalhando: "Por isso os judeus perseguiram a Jesus, porque fazia estas coisas no sábado. Mas Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também. Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só violava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus" (Jo 5.16-18). Jesus e os apóstolos eram judeus, por isso, muitas vezes foram à sinagoga ou ao templo para participar das orações determinadas. No entanto, após a ascensão de Jesus, os cristãos passaram a se distanciar de algumas práticas judaicas, inclusive o sábado. O dia do Senhor passa a ser o primeiro dia da semana, o domingo. Em At 20.7 está escrito: "No primeiro dia da semana, tendo-nos reunido a fim de partir o pão..." A expressão "partir o pão" significa a celebração da ceia cristã (culto).

COM RELAÇÃO AO TEXTO DE ATOS 17.2
“Paulo, segundo o seu costume, foi procura-los e, por três sábados, arrazoou com eles acerca das Escrituras”.
Os “defensores do Sábado” se baseiam nesse texto para dizer que Paulo continuou observando o sábado, como dia sagrado. Porém, o texto de Atos não diz que Paulo foi à sinagoga para cumprir preceito, mas para "discutir". Como estando entre os gregos, foi também em um de seus templos (Cf. At 17.16-31). Nem por isso, guardava costumes gregos.

COM RELAÇÃO AO TEXTO DE ATOS 22.3
“Sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas criado nesta cidade. Fui instruído rigorosamente por Gamaliel na lei de nossos antepassados, sendo tão zeloso por Deus quanto qualquer de vocês hoje”.
Questionam os defensores do sábado: “Como não observava a guarda de nenhum dia se ele mesmo se define como instruído e zeloso da lei dos judeus?”
Com relação ao questionamento acima, afirmamos: Paulo faz um relato da sua conversão, lembrando-se de sua vida passada quando vivia nos preceitos do judaísmo. O texto não indica que ele seguia, a partir de sua conversão, os costumes judaicos.
Portanto, o texto de Atos 22.3 não é argumento seguro para sustentar que Paulo continuou seguindo os costumes judaicos. Pelo contrário, Paulo utilizou-se de seus conhecimentos e experiência no judaísmo, para apresentar o Evangelho para os próprios judeus.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Após a ressurreição de Jesus, os cristãos não mais passaram a observar o sétimo dia, mas o primeiro dia da semana como dia descanso. O domingo é para os cristãos o “dia do Senhor” (κυριακῇ ἡμέρᾳ -Cf. Ap 1.10)  em memória de sua ressurreição (Cf. At 20.7;1Cor 16.2). Todos os dias são santos para o Senhor. No entanto, os cristãos reservaram o domingo para santificarem suas próprias vidas na escuta da Palavra e na adoração ao Senhor.

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Lúcio Rufino Pinheiro

sábado, 26 de outubro de 2019

POR QUE NÃO DEVEMOS ACREDITAR NA DOUTRINA DO PURGATÓRIO? (Primeiro esboço))


Com base nas Escrituras, apresento quatro razões porque não devemos acreditar na doutrina do purgatório.
RAZÃO 1: A redenção de Cristo foi suficiente para nossa salvação, não sendo necessário uma estado de purificação após a morte. “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7). Uma vez que o pecador se arrepende sinceramente, confessa seus pecados, faz o propósito de uma nova vida e recorre cotidianamente à sua graça, Deus realiza sua justiça. Na Primeira Carta de João 1.8 está escrito: “Se confessamos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça”.
A morte de Cristo perdoou todos os nossos pecados e satisfez completamente as penas devidas.   Não existe prova bíblica que a justiça divina exija do pecador qualquer satisfação, qualquer boa obra para que possa ser justificado ou purificar alguém dos seus pecados na vida eterna, caso contrário, a justificação não seria pela graça, mas por méritos humanos. Paulo é claro: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós; é dom de Deus, não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8). Onde há arrependimento sincero e propósito de uma vida correta, a misericórdia de Deus vem ao encontro do homem e apaga toda lembrança de suas transgressões: “Mas, se o perverso se converter de todos os pecados que cometeu, e guardar todos os seus estatutos, e fizer o que é reto e justo, certamente, viverá; não será morto. De todas as transgressões que cometeu não haverá lembrança contra ele, pela justiça que praticou, viverá” (Ez 18.21,22).  Assim, se uma pessoa vivia em pecado, se arrependeu no leito de morte, encontra a salvação, não sendo necessário que pague as penas pelos seus pecados no purgatório através de indulgências ou boas obras (orações, jejuns, esmolas, promessas, missas). O purgatório não é “lugar” para se adquirir méritos. Mediante a fé em Jesus, não tendo a intenção de ser justificado diante de Deus por nenhuma obra,  o cristão deve, na sua vida terrena, praticar o bem enquanto tem tempo (Cf. Gl 6.10). Jesus falou da necessidade de fazer as obras do Pai “enquanto é dia; a noite vem quando ninguém pode trabalhar” (Jo 9.3).  As obras, por serem evidências da fé em Jesus, realizadas através da graça, nos acompanharão (Cf. Ap 14.13). Receberemos a recompensa conforme aquilo que semeamos, fizemos por meio do corpo (Cf. 2Cor 5.10; Gl 6.7,8;).
Diante do tribunal de Cristo, não haverão mais possibilidades de pagamentos de penas, de práticas de satisfação pelos nossos pecados. Assim como nossas virtudes não anulam o que fizemos de ruim, assim também, na eternidade, nenhuma boa obra será eficaz para libertar as penas de uma alma no purgatório.   O que nos resta é a fé na justiça divina que agirá conforme sua vontade e não baseada em méritos pessoais, pois é lícito que o Senhor faça o que quer com aquilo que lhe pertence (Cf. Mt 20.15). Quem acredita na necessidade de um estado de purificação após a morte, nega que Jesus, pelo seu sangue vertido na cruz, nos purificou de todos os pecados. Crer no purgatório é limitar a expiação de Cristo e sua eficácia plena para a salvação.

RAZÃO 2: Não existe nenhuma referência bíblica sobre o purgatório. Do Gênesis ao Apocalipse, não encontramos nenhuma passagem bíblica que faça menção a um estado intermediário entre os mortos condenados e os bem-aventurados ou que seja necessário que as almas sejam purificadas dos seus pecados para entrarem no céu. A doutrina da Igreja Católica Romana, com base em sua tradição, diz que antes do juízo existe um fogo purificador (Cf. CIC, n.1031). Porém, diferente, do que rege a doutrina Católica Romana, a Bíblia diz que o que nos espera após a morte é o juízo: “E assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, depois disto, o Juízo” (Hb 9.27).
Outro texto bíblico que trata sobre o juízo, como uma realidade posterior a morte, se encontra na primeira Carta aos Coríntios 3.13-15, que diz: “Manifesta se tornará a obra de cada um; pois o Dia a demonstrará, porque está sendo revelada pelo fogo; e qual seja a obra de cada um o próprio fogo o provará. Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou, esse receberá galardão; se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, todavia, através do fogo”.
Com base na interpretação desse texto bíblico por parte de alguns padres antigos, a Igreja Católica Romana definiu a doutrina do purgatório. O texto Paulino, entendido no seu contexto, não se refere à purificação de almas, mas trata da evidenciação e provação das obras dos ministros da pregação. No “Dia” do julgamento, e não antes do julgamento como se encontra na definição da doutrina do purgatório (Cf. CIC, n. 1031), ficará evidente se as obras dos pregadores foram edificadas sobre o fundamento, sobre coisas preciosas (“ouro, prata, pedras preciosas”) ou coisas inúteis (“madeira, feno, palha”) (Cf. 1Cor 3.12). O fogo, que tem poder de purificar, haverá de mostrar o que resistirá ou não, o que terá pureza ou não, o que terá veracidade ou não diante do julgamento de Deus. Naquele Dia, “conhecerei como sou conhecido” (1Cor 13.12), isso é,  o homem compreenderá a verdade sobre si mesmo e tendo passado pela prova de fogo, receberá o galardão (Cf. 1Cor 3.13), será salvo (Cf. 1Cor 3.17).
A eternidade não é lugar de purificação das almas, com “um fim de obterem a santidade necessária para entrarem na alegria do Céu” (CIC, n. 1030) e nem tão pouco essa “purificação liberta do que se chama « pena temporal » do pecado” (CIC, 1472). A obra do ser humano, por melhor que pareça, não tem poder meritório para purificar a alma de quem morreu. “Cada um receberá o seu galardão, segundo o seu próprio trabalho” (1Cor 3.8). O texto não diz que receberemos recompensa através dos trabalhos, “méritos” ou obras de outros.  
A única possibilidade de purificação de uma pessoa é na vida terrena.  Através de várias provações, sofrimentos nossa fé é constantemente provada. Assevera o Apóstolo Pedro: “Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações, para que, uma vez confirmado o valor de vossa fé, muito mais que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória na revelação de Jesus Cristo; a quem, não havendo visto, amais, no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória, obtendo o fim de vossa fé: a salvação de vossa alma” (1 Pd 1.6-9).
A Igreja Católica Romana considera o texto citado como um dos fundamentos bíblicos acerca do purgatório. Porém é mais um engano. Pedro não trata de uma purificação após a morte, mas em vida, “no presente” (1Pd 1.6). Assim como o valor do ouro é provado pelo fogo, assim também, o verdadeiro valor da fé se revela quando a mesma é testada. O fogo não diminui a qualidade do ouro, mas o purifica. “Assim Deus impôs a cruz a todos os cristãos para limpar e purificá-los bem, a fim de que a fé permaneça pura, assim como a Palavra é pura, de maneira que a pessoa se apegue unicamente à Palavra e não se apoie sobre outra coisa. Pois nós certamente precisamos dessa purificação e aflição todos os dias por causa do grosseiro velho Adão” (Lutero, AE 30.17).
A santidade necessária para entrarmos na alegria do céu foi nos possibilitada na cruz. A sua graça não foi incompleta, imperfeita de forma que precisamos oferecer sacrifícios cotidianamente pelo sufrágio dos que morreram, pois “Cristo, tendo oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para salvação” (Hb 9.28). Por meio do seu sacrifício, Jesus nos fez justos e santos, nos redimiu do pecado e da morte e nos trouxe para o reino celestial. Todas as nossas obras usadas para expiar pecados configura-se como uma ofensa a graça de Deus.
Podemos “deduzir que certas faltas podem ser perdoadas no século futuro” (CIC, n.1030) como argumenta a Igreja Católica Romana em defesa do purgatório?  O papa Gregório Magno (50-604), com base em Mt 12.32, cogitou essa possibilidade de que algumas faltas podem ser perdoadas na eternidade. Porém, o texto não possibilita essa interpretação. Vejamos o que diz o texto: “Se alguém proferir alguma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á isso perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir”. O texto trata sobre o pecado sem perdão, ou seja, é o pecado que leva à condenação. Aqui não se trata de pecados veniais ou penas das quais a pessoa pode se purificar no purgatório como os defensores dessa doutrina afirmam. Ora, segundo a doutrina do purgatório, os que passam por estado de purificação, já estão destinados à salvação. Assim, o texto de Mateus não pode ser usado como justificativa para o purgatório, pois o mesmo deixa evidente a impossibilidade da salvação para quem blasfemar contra o Espirito Santo. O que significa então a expressão: “não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir”? Não significa que exista a possibilidade de perdão de pecados em outra vida, mas a expressão é uma forma enfática de dizer “nunca”, pois, como o próprio texto afirma é um “pecado sem perdão” (Mt 12.31).
Os argumentos bíblicos usados pela Igreja Católica são insuficientes para provar a existência do purgatório, pois se baseiam em interpretações equivocadas por parte de alguns padres da Igreja.

RAZÃO 3: O purgatório nunca foi uma crença da Igreja primitiva. Jesus e os apóstolos não fizeram uma única referência a um estado de purificação da alma após a morte, denominado de purgatório.  Eles apontaram apenas dois destinos para o homem após sua morte: céu e inferno. Uma prova contundente que não há necessidade de purificação da alma após a morte se encontra nas palavras de Jesus ao ladrão arrependido: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23.42). Essa absolvição de Cristo foi suficiente, não sendo necessário ao ladrão, pagar em outra vida pelas penas dos seus pecados. No entanto, na compreensão Católica Romana do purgatório, deveríamos entender as palavras de Jesus da seguinte maneira: “Primeiro, você vai para o purgatório purificar-se de suas faltas, depois de serem celebradas várias missas em sufrágio de sua alma e seus irmãos tiverem feitos várias boas obras oferecidas pela sua purificação, você estará comigo no paraíso”.  O texto bíblico deixa explícito que é “hoje” o dia da salvação. No momento que o ladrão reconheceu seus pecados e testemunhou a inocência de Jesus, ou seja, reconheceu sua majestade e graça, (Cf. Lc 23. 41,42 ), foi agraciado com a vida eterna. “Se existia” purgatório, Jesus aboliu ou desconsiderou desnecessário para entrar no céu quando deu uma absolvição plena de todos os pecados e penas do ladrão arrependido, sem exigir nenhuma satisfação de suas penas na vida futura.
   
RAZÃO 4: O purgatório é uma doutrina formulada pelo Concílio de Florença (1438-1445) e confirmada pelo Concílio de Trento (1545-1563). Nenhum outro Concílio anterior pronunciou-se sobre o purgatório, ou seja, por mais de um milênio, não existiu por parte da Igreja cristã o reconhecimento do purgatório como dogma de fé. O que deixa evidente que não era um ensinamento aceito por todos os cristãos, principalmente pelos Católicos Ortodoxos.
Na Idade Média, com a pregação das indulgências, a doutrina sobre a existência do purgatório foi bastante acentuada. O papado, através de pagamentos, prometia indulgências como garantias do perdão das penas que o pecador deveria expiar no purgatório. A doutrina do purgatório interligada com a doutrina das indulgências tornou-se fonte de lucro para a Igreja de Roma.  Lutero foi crítico com relação essa prática lucrativa: “Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, alma sairá voando (do purgatório para o céu). Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão, porém, depende apenas da vontade de Deus” (Teses 27 e 28). Assim, se o purgatório tem alguma utilidade, esta consiste em favorecer os cofres da Igreja Romana e de seus clérigos. “Desde o início do mundo não se descobriu negócio mais lucrativo e menos trabalhoso. Pois por meio desse artifício foram canalizados para cá por meio dos fundadores das igrejas as riquezas, os prazeres e a ociosidade, por meio da ociosidade, porém, Babilônia e Sodoma. Pois Satanás odiava o sacramento do altar e não se lhe oferecia uma forma de esvaziá-lo de seu conteúdo. Inventou então que fosse considerado uma boa obra e um sacrifício, que fosse comprado e vendido o que Cristo instituiu somente como sacramento para alimentar a fé dos fiéis” (LUTERO, Obras Completas, v.3, p. 64). Em nome do lucro, a missa foi convertida em boa obra por meio da qual pode fazer satisfação pelos pecados dos vivos e mortos, quando na verdade, a missa (ou ceia) é um sacramento (sinal) e um testamento (contém as promessas de Deus para nossa salvação) que se deve receber como benefício, graça.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:
A doutrina do purgatório é uma invenção da Igreja Romana, fruto da interpretação distorcida do sentido das Escrituras. Assim, profanam a Palavra de Deus, cumprindo a profecia de Daniel que diz sobre o levantamento de “um rei de feroz catadura e especialista em intrigas. Grande é o seu poder, mas não por sua própria força; causará estupendas destruições, prosperará e fará o que lhe aprouver; destruirá os poderosos e o povo santo. Por sua astúcia nos seus empreendimentos, fará prosperar o engano, no seu coração se engrandecerá e destruirá a muitos que vivem despreocupadamente; levantar-se-á contra o Príncipe dos príncipes, mas será quebrado sem esforço de mãos humanas” (8.23-25).  Convém que estejamos atentos, pois no reino das aparências de piedade e boas obras,  “Antíoco IV”, opositor de Deus, continua com suas astúcias, fazendo “prosperar o engano”.   
Diante dos argumentos apresentados, podemos inferir que:
1. A Redenção de Cristo foi suficiente para nossa salvação, não sendo necessário um estado de purificação da alma após a morte;
2. Não devemos acreditar no purgatório, pois sua doutrina não tem fundamentação bíblica, mas apenas baseia-se em interpretações bíblicas de alguns padres da Igreja. A interpretação deles dos textos bíblicos não pode ter a mesma autoridade das Escrituras;
3. O purgatório nunca foi uma crença da Igreja primitiva. Jesus e os apóstolos não fizeram uma única referência a um estado de purificação da alma após a morte, denominado de purgatório.  Eles apontaram apenas dois destinos para o homem após sua morte: céu e inferno;
4.  Por mais de um milênio, não existiu por parte da Igreja cristã o reconhecimento do purgatório como dogma de fé. O que deixa evidente que não era um ensinamento aceito por todos os cristãos.
5. Nenhuma doutrina que não tenha fundamentação nas Escrituras deve ser aceita como norma de fé. Em oposição à doutrina do purgatório que exige obras para purificar a alma, creio na Palavra que diz: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós; é dom de Deus, não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8).

Lúcio Rufino Pinheiro

sexta-feira, 28 de junho de 2019

"MAIS VALE SABEDORIA DO QUE ARMAS" ( Ecl 9,18a)


“Mais vale sabedoria do que armas” (Ecl 9,18a, Bíblia de Jerusalém, nova edição, revista e ampliada). A Edição Pastoral usa o termo "instrumentos de guerra". A palavra usada por várias traduções em grego é δύναμιν, que significa a força humana com todos os seus instrumentos de batalha. Os versículos 14-15 do capítulo 9 de Eclesiastes indicam que o contexto trata da força da sabedoria que luta contra as "máquinas de guerra". Assim, o hagiógrafo apresenta o valor superior da sabedoria comparado com as armas (poder, força humana violenta).
É notório que o Antigo Testamento não proíbe o uso de armas para defesa e conquista do seu povo. Os relatos bíblicos apresentam vários episódios permeados pelo uso da violência armada (Cf. Js 6; Jz 8,13-21; 1Sm 4,1-11; 2Sm 8,1-13). No entanto, o “Decálogo” (dez mandamentos) proíbe o assassinato: “Não matarás” (Ex 20, 13).
Para muitos estudiosos das línguas bíblicas, a tradução mais adequada do quinto mandamento seria: “Não assassinarás”. Os verbos assassinar e matar têm significados diferentes no Antigo Testamento. Vejamos:
a) ASSASSINAR (Ratsach): É quando se tem a intenção de tirar a vida, quando o crime é premeditado (Cf. Gn 4,8);
b) MATAR (Muwtn): Quando é um acidente e não tem intenção de tirar a vida do outro (Cf. Dt 19,5).
A partir dessa distinção do significado de assassinar e matar, com base nos textos bíblicos, é possível compreender com clareza o tema da legítima defesa. Em Êxodo 22,2-3, lemos: "Se um ladrão for surpreendido arrombando um muro e sendo ferido morrer, quem o feriu não será culpado de sangue ..." Nota-se que não existia a intenção de matar. Quem surpreendeu o ladrão apenas teve a intenção de ferir, a morte poderia ter ou não ocorrido. Se o ladrão tivesse morrido teria acontecido um acidente. Segunda parte : "Se, porém, fizer isso depois de ter nascido o sol, quem o ferir será culpado de sangue" . Por que é culpado se for depois do nascer do sol? Durante a noite fica difícil discernir se o intruso é um assassino ou ladrão. Porém, à luz do dia, quem feriu torna-se culpado, porque teria outras possibilidades de defesa. Diante do conflito é mais prudente se esconder, fugir do que reagir com violência (Cf. Pv 22,3; 27,12). Caso contrário, a defesa torna-se vingança, crime de assassinato.
A compreensão da legítima defesa, que é um direito natural, deve ser feita a partir do Novo Testamento, principalmente levando em consideração os ensinamentos de Jesus. O “Príncipe da Paz” ensinou os caminhos do amor, da paz, da não violência: “felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” ( Mt 5, 9). Ele repreendeu a Pedro por ter usado uma espada para ferir o soldado, “pois todos os que pegam a espada pela espada perecerão” (Mt 26, 52).
Em Lc 22, 35-38, Jesus manda que seus apóstolos comprem uma espada. No entanto, esse texto não pode ser entendido no seu sentido literal, pois haveria uma contradição com os ensinamentos de Jesus. A espada do cristão é a Palavra, seu escudo é a fé, seu capacete é a salvação (Cf. Ef 6, 16-17). Não existe nenhuma passagem do Novo Testamento que indica que os cristãos reagiram com armas diante das perseguições dos Romanos ou que faça uma apologia ao uso de armas para legítima defesa. Pelo contrário, perseguidos, maltratados, feridos pelos seus opositores, os cristãos entregaram suas vidas sem nenhuma resistência armada.
O uso da espada, no cristianismo, começou com a união da Igreja com o Império Romano. Até os dois primeiros séculos, os cristãos eram proibidos de participarem do exército. Os que eram batizados, sendo soldados, tinham que deixar o exército romano. "Uma cuidadosa análise de toda a informação disponível mostra que, até o tempo de Marco Aurélio (121-180), nenhum cristão tornou-se soldado; e nenhum soldado, depois de tornar-se cristão, permanecia no serviço militar" (E.A. BARNES, 1947, p. 333). No cristianismo, a paz e a segurança não são conquistadas pelas forças das armas e da violência. A paz é fruto da justiça, da solidariedade. A segurança da sociedade é de responsabilidade da autoridade constituída. Compete a essa autoridade, quando necessário, o uso da espada para punir quem pratica o mal e fazer justiça (Cf. Rm 13, 4-5).
Hoje, nos deparamos com inúmeros “cristãos armamentistas”. Uma realidade que não deve ser motivo de tanta estranheza, pois, no primeiro século do cristianismo, religiosos judeus e alguns discípulos de Jesus acreditavam no poder das armas como solução para os problemas sociais. No tempo de Jesus, existia um grupo religioso entre os judeus, os zelotes. Na concepção dos zelotes, o messias deveria ser um guerreiro que lutasse com armas. No grupo dos apóstolos, Simão era conhecido como o zelote (Cf. Mc 3,18). Entre os apóstolos de Jesus alguns pensavam como os zelotes. Jesus não correspondeu aos desejos dos zelotes. Entra em Jerusalém não como um rei-guerreiro montado em um cavalo, mas sim como um rei humilde, montando em jumento (Cf. Mt 21, 1-11). Diferente dos zelotes, Jesus não desejava construir um reino terreno. "Jesus respondeu: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue às autoridades dos judeus. Mas agora o meu reino não é daqui" (Jo 18,36-37). O reino de Jesus não é dos acreditam na força das armas, dos poderosos desse mundo que usam do poder armamentista para conquistar, dominar. Para quem acreditava em uma libertação através das armas e não da obediência ao Pai, o Mestre fez a seguinte correção: “Mas Jesus disse a Pedro: Guarde a espada na bainha. Por acaso não vou beber o cálice que o Pai me deu?" (Jo 18,11). Jesus recriminou o apóstolo que usou de violência. Sua arma não era a espada, mas sua obediência ao Pai. Suas armas eram: amor, humildade e paz. São essas as armas que os seguidores de Jesus devem ter.
O discurso de muitos “religiosos armamentistas” (cristãos das mais diversas denominações religiosas), que fazem apologia à posse e ao porte de armas com o argumento de que são úteis para o direito à legítima defesa não tem coerência com a mensagem cristã. O direito à legítima defesa jamais pode ser usado para legitimar o uso de arma ou para tirar a vida de alguém na ocasião em que o indivíduo achar conveniente. A legítima defesa é justificável quando todos os recursos forem esgotados. Portanto, a morte do agressor só é justificada em situações extremas para preservar a própria vida ou salvar a vida do inocente. "Quem defende sua vida não é culpável de homicídio, mesmo se for obrigado a matar o agressor: Se alguém, para se defender, usar de violência mais do que o necessário, seu ato será ilícito (destaques nossos). Mas, se a violência for repelida com medida, será lícito... E não é necessário para a salvação omitir este ato de comedida proteção para evitar matar o outro, porque, antes da de outrem, se está obrigado a cuidar da própria vida" (CIC, n.2264).
Recentemente, o papa Francisco fez uma declaração criticando o uso da força das armas. O líder da Igreja Católica Romana pediu a proibição das armas para que o mundo tenha paz e não conviva “com medo da guerra”. “Pessoas que fabricam armas ou investem na indústria armamentista estão sendo hipócritas se chamarem a si próprias de cristãs”, disse o Papa Francisco. Continua o papa: “Nós realmente queremos a paz? Então, vamos banir as armas para não ter que viver no medo da guerra”.
Diante do que foi refletido, infere-se que a posse e o porte de armas não são escolhas adequadas para o cristão. A segurança dos que acreditam em Jesus e sua legítima defesa não se encontram na força das armas, mas na disponibilidade para promover uma sociedade mais justa e fraterna. A violência, a guerra e o desejo de extermínio do outro têm suas origens na ausência de amor no coração da humanidade, gerando egoísmo, desrespeito, desigualdade. O caminho mais prudente consiste em compreender que “mais vale sabedoria que armas” (Ecl 9, 18a), que mais vale “guardar a espada” do que “apontá-la” como única solução para a defesa da vida.
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Lúcio Rufino Pinheiro