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domingo, 8 de dezembro de 2019

DOGMA DA IMACULADA CONCEIÇÃO (DEBATE)



Paulo diz em Rm 3.9: "Pois acabamos de provar que TODOS, tantos os judeus como os gregos, estão debaixo do pecado". É possível conciliar a mensagem bíblica com o dogma da Igreja Católica Romana que diz que Maria foi PRESERVADA do pecado original?

- Alfa: “Paulo está se referindo às regras e não às exceções: sua mãe é uma exceção”.

- Uma boa interpretação do texto bíblico não pode desconsiderar seu sentido próprio, literal. O texto de Romanos 3 não menciona exceções, pois se refere a nossa condição humana de pecadores. Nesse sentido, TODOS pecaram e necessitam da graça divina.

- Alfa: “Toda criatura é pecadora?”

- Toda criatura humana foi contaminada pelo  pecado. Maria é  uma criatura humana. Logo, Maria    foi concebida em pecado. 
Jesus veio salvar o pecador. Se considerarmos como verdadeira a premissa que Maria não tinha pecado,  teremos que aceitar como verdadeira a conclusão que  Maria não precisava de um Salvador.

- Alfa: “Ora, também as criancinhas aquém da idade da razão não se excluem na regra geral que todos pecaram”.

- As crianças se incluem no “todos pecaram”, pois elas herdaram o pecado de Adão. Disse Davi: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado concebeu minha mãe” (Sl 51.5). A própria doutrina Católica reconhece que as crianças têm o pecado original.

- Alfa: “Nos capítulos 1 a 3 de Romanos, o Apóstolo Paulo está tratando de pecados pessoais, obviamente, as crianças recém-nascidas não estão incluídas”.

- Rm 1 a 3 fala da depravação  total do homem, assim sendo, e as crianças estão incluídas.  Pecado aqui não deve ser entendido apenas como transgressão moral, mas como realidade que faz parte da nossa natureza decaída. Nós não  somos pecadores porque cometemos pecados, mas cometemos pecados porque somos pecadores. "Pois já temos demonstrado que todos, judeus e gregos, estão debaixo do pecado" (Rm 3.9). "Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus" (Rm 3.23). Todo pecado pessoal cometido tem sua causa na nossa natureza pecaminosa. Rm 5.12, Paulo trata do pecado que todos herdamos: "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram". Da mesma forma que a graça inclui todos: "Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida" (Rm 5.18). Aqui não se fala de pecados pessoais, mas do pecado que levou a todos à condenação .

- Alfa: “A vontade, sustentada pela graça, pode tomar a decisão de não pecar?"

- A graça ajuda a pessoa a resistir ao pecado. No entanto, deixar de pecar é impossível, a não ser após a morte. A Bíblia diz: “Porque sete vezes cairá o justo e se levantará” (Pv 24.16).
Paulo é claro sobre o poder do pecado que habita em nós: “porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero. Mas, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim, o pecado que habita em mim” (Rm 7.19-20). Após o pecado original a nossa vontade com relação às realidades espirituais, amor e temor a Deus, foi corrompida, de forma que, somente pela fé em Cristo, favorecido pela sua graça, o homem pode viver reconciliado com Deus. Somos pecadores. Por mérito próprio, jamais podemos viver na presença de Deus. Agora, cobertos pelo manto da graça, o pecado vai perdendo sua força, de modo que, com o passar do tempo, vamos progredindo na vida nova em Cristo.


- Alfa: “Na sua ótica então até Jesus pecou. Todos são todos”.

- Pelo contexto do texto mencionado e pelo conjunto das Escrituras, não cabe essa interpretação. Jesus não se encaixa no todos por uma simples razão: Ele não assumiu a nossa natureza humana decaída, mas nossa natureza perfeita, como Deus a criou. Jesus foi igual a nós em tudo, exceto no pecado (Cf. Hb 4.15). Com relação à Maria é diferente. Ela herdou a natureza humana corrompida pelo pecado. Portanto, ela não pode ser uma exceção. Se Maria se incluir na exceção, teremos que concluir que ela não precisava da graça salvadora de Cristo. O que não é verdade.

-Alfa: “Jesus é imaculado por natureza, pois Ele é Deus. Maria é imaculada pela graça. Portanto, sem a graça de Deus, Maria não teria sido preservada do pecado original”.

- Quanto ao fato de Jesus ser imaculado por natureza, estamos de acordo. Porém, não posso afirmar o mesmo sobre Maria. Mesmo que seja pela graça, não podemos afirmar que Maria é a Imaculada Conceição, pois, em nenhuma passagem da Escritura temos o testemunho de que, por graça, Maria foi preservada do pecado original. A graça veio para todos em Jesus. Ela nos oferece condições de ser salvos, de superar as tentações. Porem, não retira de nós a possibilidade de pecar, pois nossa natureza se encontra decaída pelo pecado. A experiência é testemunha que não deixamos de pecar mesmo depois de recebermos a graça salvadora, pois, esse favor imerecido, não anula nossa natureza pecadora. Assevera Paulo: “Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim” (Rm 7.20).

- Alfa: “Todo dogma é verdadeiro para a Igreja, do contrário não seria dogma”.

- Todo dogma é verdadeiro para quem? Para toda a Igreja de Cristo? De forma alguma.  Muitos dogmas que foram determinados pela Igreja Romana e por outras igrejas não têm aceitação de todos os que pertencem à verdadeira Igreja, pois não são respaldados nas Escrituras, mas em tradições humanas.  O dogma da Imaculada Conceição foi instituído em 1854 pelo papa Pio IX, ou seja, por mais de mil e oitocentos anos nunca foi uma verdade de fé obrigatória e inquestionável.  

- Alfa: “O dogma da Imaculada Conceição tem base na interpretação bíblica da Tradição da Igreja”. E a Interpretação da Bíblia dos Padres da Igreja é plenamente confiável".

- Toda verdade de fé deve ser fundamentada na Bíblia e não apenas em interpretações da Tradição.  Você destaca a importância da Tradição e do Magistério para a interpretação da Bíblia. Os padres da Igreja deram grande contribuição para hermenêutica bíblica. No entanto, alguns cometeram erros na interpretação bíblica. Tomemos como exemplo o texto de Pv 8.22. Jerônimo cometeu um equívoco ao traduzir "intencionalmente" na Vulgata o termo hebraico "qânanî", criou/criar das Escrituras Hebraicas e εκτισεν da Septuaginta como "possedit me" (possuiu-me/adquiriu-me), adulterando assim o sentido original do texto hebraico, apenas para combater o arianismo, ou seja, para fazer um ajustamento do texto bíblico com a doutrina Católica. Poderia citar outros textos que Jerônimo adulterou, mas vou ficar somente com o texto de Provérbios. A "boa intenção" de Jerônimo não deve ser elogiada, mas, pelo contrário, deve ser reprovada, pois convém que o tradutor seja fiel ao texto original. Com uma boa exegese é possível compreender Pv 8.22 sem necessidades de adaptações ou traduções inadequadas do texto.
Assim, o argumento que o dogma da Imaculada Conceição deve ser aceito com base na interpretação bíblica da Tradição não se sustenta, pois, como apresentamos no exemplo acima, os Padres da Igreja  nem sempre fizeram interpretações bíblicas confiáveis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não parece estranho que o dogma da Assunção não tenha sido definido por nenhum dos Concílios da Igreja dos primeiros séculos? Por que um fato extraordinário, como o da “Imaculada Conceição de Maria”, não foi tratado em nenhum dos escritos dos apóstolos? São questões para reflexões.

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Lúcio Rufino Pinheiro

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