Paulo diz em Rm 3.9: "Pois
acabamos de provar que TODOS, tantos os judeus como os gregos, estão debaixo do
pecado". É possível conciliar a mensagem bíblica com o dogma da Igreja
Católica Romana que diz que Maria foi PRESERVADA do pecado original?
- Alfa: “Paulo está se referindo
às regras e não às exceções: sua mãe é uma exceção”.
- Uma boa interpretação do texto
bíblico não pode desconsiderar seu sentido próprio, literal. O texto de Romanos
3 não menciona exceções, pois se refere a nossa condição humana de pecadores. Nesse sentido, TODOS pecaram e necessitam da graça divina.
- Alfa: “Toda criatura é pecadora?”
- Toda criatura humana foi
contaminada pelo pecado. Maria é uma criatura humana. Logo,
Maria foi concebida em pecado.
Jesus veio salvar o pecador. Se considerarmos
como verdadeira a premissa que Maria não tinha pecado, teremos que aceitar como verdadeira a
conclusão que Maria não precisava de um
Salvador.
- Alfa: “Ora, também as
criancinhas aquém da idade da razão não se excluem na regra geral que todos
pecaram”.
- As crianças se incluem no “todos
pecaram”, pois elas herdaram o pecado de Adão. Disse Davi: “Eu nasci na
iniquidade, e em pecado concebeu minha mãe” (Sl 51.5). A própria doutrina Católica
reconhece que as crianças têm o pecado original.
- Alfa: “Nos capítulos 1 a 3 de
Romanos, o Apóstolo Paulo está tratando de pecados pessoais, obviamente, as
crianças recém-nascidas não estão incluídas”.
- Rm 1 a 3 fala da
depravação total do homem, assim sendo, e as crianças estão
incluídas. Pecado aqui não deve ser entendido apenas como transgressão
moral, mas como realidade que faz parte da nossa natureza decaída. Nós
não somos pecadores porque cometemos pecados, mas cometemos pecados
porque somos pecadores. "Pois já temos demonstrado que todos, judeus e
gregos, estão debaixo do pecado" (Rm 3.9). "Pois todos pecaram e
carecem da glória de Deus" (Rm 3.23). Todo pecado pessoal cometido tem sua
causa na nossa natureza pecaminosa. Rm 5.12, Paulo trata do pecado que todos
herdamos: "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo,
e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque
todos pecaram". Da mesma forma que a graça inclui todos: "Pois assim
como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação,
assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para
a justificação que dá vida" (Rm 5.18). Aqui não se fala de pecados
pessoais, mas do pecado que levou a todos à condenação .
- Alfa: “A vontade, sustentada
pela graça, pode tomar a decisão de não pecar?"
- A graça ajuda a pessoa a
resistir ao pecado. No entanto, deixar de pecar é impossível, a não ser após a
morte. A Bíblia diz: “Porque sete vezes cairá o justo e se levantará” (Pv
24.16).
Paulo é claro sobre o poder do
pecado que habita em nós: “porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não
quero. Mas, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim, o pecado
que habita em mim” (Rm 7.19-20). Após o pecado original a nossa vontade com
relação às realidades espirituais, amor e temor a Deus, foi corrompida, de
forma que, somente pela fé em Cristo, favorecido pela sua graça, o homem pode
viver reconciliado com Deus. Somos pecadores. Por mérito próprio, jamais
podemos viver na presença de Deus. Agora, cobertos pelo manto da graça, o
pecado vai perdendo sua força, de modo que, com o passar do tempo, vamos
progredindo na vida nova em Cristo.
- Alfa: “Na sua ótica então até
Jesus pecou. Todos são todos”.
- Pelo contexto do texto
mencionado e pelo conjunto das Escrituras, não cabe essa interpretação. Jesus
não se encaixa no todos por uma simples razão: Ele não assumiu a nossa natureza
humana decaída, mas nossa natureza perfeita, como Deus a criou. Jesus foi igual
a nós em tudo, exceto no pecado (Cf. Hb 4.15). Com relação à Maria é diferente.
Ela herdou a natureza humana corrompida pelo pecado. Portanto, ela não pode ser
uma exceção. Se Maria se incluir na exceção, teremos que concluir que ela não
precisava da graça salvadora de Cristo. O que não é verdade.
-Alfa: “Jesus é imaculado por
natureza, pois Ele é Deus. Maria é imaculada pela graça. Portanto, sem a graça
de Deus, Maria não teria sido preservada do pecado original”.
- Quanto ao fato de Jesus ser
imaculado por natureza, estamos de acordo. Porém, não posso afirmar o mesmo
sobre Maria. Mesmo que seja pela graça, não podemos afirmar que Maria é a
Imaculada Conceição, pois, em nenhuma passagem da Escritura temos o testemunho
de que, por graça, Maria foi preservada do pecado original. A graça veio para
todos em Jesus. Ela nos oferece condições de ser salvos, de superar as
tentações. Porem, não retira de nós a possibilidade de pecar, pois nossa
natureza se encontra decaída pelo pecado. A experiência é testemunha que não
deixamos de pecar mesmo depois de recebermos a graça salvadora, pois, esse
favor imerecido, não anula nossa natureza pecadora. Assevera Paulo: “Mas, se eu
faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em
mim” (Rm 7.20).
- Alfa: “Todo dogma é verdadeiro
para a Igreja, do contrário não seria dogma”.
- Todo dogma é verdadeiro para
quem? Para toda a Igreja de Cristo? De forma alguma. Muitos dogmas que foram determinados pela
Igreja Romana e por outras igrejas não têm aceitação de todos os que pertencem
à verdadeira Igreja, pois não são respaldados nas Escrituras, mas em tradições
humanas. O dogma da Imaculada Conceição
foi instituído em 1854 pelo papa Pio IX, ou seja, por mais de mil e oitocentos
anos nunca foi uma verdade de fé obrigatória e inquestionável.
- Alfa: “O dogma da Imaculada
Conceição tem base na interpretação bíblica da Tradição da Igreja”. E a Interpretação da Bíblia dos Padres da Igreja é plenamente confiável".
- Toda verdade de fé deve ser
fundamentada na Bíblia e não apenas em interpretações da Tradição. Você destaca a importância da Tradição e do
Magistério para a interpretação da Bíblia. Os padres da Igreja deram grande
contribuição para hermenêutica bíblica. No entanto, alguns cometeram erros na
interpretação bíblica. Tomemos como exemplo o texto de Pv 8.22. Jerônimo
cometeu um equívoco ao traduzir "intencionalmente" na Vulgata o termo
hebraico "qânanî", criou/criar das Escrituras Hebraicas e εκτισεν da
Septuaginta como "possedit me" (possuiu-me/adquiriu-me), adulterando
assim o sentido original do texto hebraico, apenas para combater o arianismo,
ou seja, para fazer um ajustamento do texto bíblico com a doutrina Católica.
Poderia citar outros textos que Jerônimo adulterou, mas vou ficar somente com o
texto de Provérbios. A "boa intenção" de Jerônimo não deve ser
elogiada, mas, pelo contrário, deve ser reprovada, pois convém que o tradutor
seja fiel ao texto original. Com uma boa exegese é possível compreender Pv 8.22
sem necessidades de adaptações ou traduções inadequadas do texto.
Assim, o argumento que o dogma da
Imaculada Conceição deve ser aceito com base na interpretação bíblica da
Tradição não se sustenta, pois, como apresentamos no exemplo acima, os Padres
da Igreja nem sempre fizeram interpretações
bíblicas confiáveis.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não parece estranho que o dogma
da Assunção não tenha sido definido por nenhum dos Concílios da Igreja dos
primeiros séculos? Por que um fato extraordinário, como o da “Imaculada
Conceição de Maria”, não foi tratado em nenhum dos escritos dos apóstolos? São
questões para reflexões.
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Lúcio Rufino Pinheiro

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