A IGREJA DE CRISTO PODE SER RESUMIDA
EM UMA ÚNICA INSTITUIÇÃO, A ROMANA?
- Beta: “A Igreja Católica Romana foi a única
fundada por Cristo”.
- A
Igreja Católica Apostólica não pode ser reduzida a uma única instituição, a
Igreja de Roma. A história aponta que, no início da expansão do cristianismo,
havia vários núcleos do Cristianismo: Jerusalém, Samaria, Antioquia, Roma, etc.
O que aconteceu é que Roma tomou para si o poder sobre as outras comunidades. Além
do mais, não podemos resumir a Igreja a uma instituição religiosa. A Igreja é o
corpo místico de Cristo, a esposa do Cordeiro. A Igreja ela não é de Pedro, Paulo, João, mas
de todos os que foram redimidos e levados no sangue de Jesus. Fazem parte da
Igreja de Jesus todos aqueles que acreditam na sua Palavra, que escutam a voz do
verdadeiro pastor, Jesus. Dessa Igreja, segundo o ancião (presbítero) Pedro ,
Jesus é o "sumo Pastor" (1Pd 5.4).
É
preciso ter cuidado com esse discurso que considera a Igreja Católica Romana
como a única verdadeira. Esse tipo de discurso acaba por negar a autenticidade
das outras tradições cristãs.
Beta: “A única Igreja de Cristo é Católica”.
- Sim,
a Igreja de Cristo é Católica e não a Igreja Romana. Pois Católica é uma
característica da Igreja (At 1.8). Dessa Igreja fazem parte todas as
testemunhas de Cristo em todas as partes do mundo. Romana não é atributo da Igreja Cristã. Isso se comprova
pelos credos mais antigos. A unicidade,
catolicidade e apostolicidade da Igreja estão além de uma instituição
específica. Caso contrário, teríamos que negar a autenticidade de todas as
Igrejas que não têm comunhão com a Igreja Romana. Cristo não fica satisfeito
quando querem colocar suas ovelhas no único cercado romano. Essa compreensão de
Igreja cristã é reducionista e equivocada.
- Beta: "A verdadeira Igreja de Cristo é visível na instituição, na sua organização hierárquica" .
- A verdadeira Igreja de Cristo encontra-se no plano espiritual e não institucional. A dimensão externa da Igreja embora seja necessária neste mundo, não se configura como uma característica essencial da Igreja de Jesus. “Ora, vós sois o corpo de Cristo, e individualmente seus membros" (1Co 12.27). "Grande é este mistério, mas eu falo em referência a Cristo e à Igreja" (Ef 5.32).
- Beta: "A verdadeira Igreja de Cristo é visível na instituição, na sua organização hierárquica" .
- A verdadeira Igreja de Cristo encontra-se no plano espiritual e não institucional. A dimensão externa da Igreja embora seja necessária neste mundo, não se configura como uma característica essencial da Igreja de Jesus. “Ora, vós sois o corpo de Cristo, e individualmente seus membros" (1Co 12.27). "Grande é este mistério, mas eu falo em referência a Cristo e à Igreja" (Ef 5.32).
A Igreja é o corpo místico de
Cristo (Ef 1.22,23). O apóstolo Paulo pontua um detalhe importante: “o corpo é
um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo”
(1Co 12.12). Quem está unido a Jesus (cabeça) é membro do corpo (Igreja). Paulo
trata a Igreja em sentido espiritual e não institucional. Aliás, muitas
vezes, Paulo usa o termo εκκλησια no plural : "αι εκκλησιαι
του χριστου" (as Igrejas de Cristo) (Rm 16.16). É notório que Paulo
estava se referindo aos cristãos que, nos mais diversos lugares ouviram a
pregação do Evangelho, se converteram e decidiram seguir a Jesus.
- Beta: “A fé da única
Igreja Católica é aquela professada pela Igreja Romana (Romanos 1.7,8)”.
- "Porque, partindo
de vós fez-se ouvir a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e na Acaia,
mas também em todos os lugares a vossa fé para com Deus se divulgou, de tal
maneira que não temos necessidade de falar coisa alguma" (1Ts 1.8). Paulo
fala da comunidade de Tessalônica. Com base na sua interpretação, poderia muito
bem dizer que "a fé da única Igreja Católica é aquela professada pela
Igreja de Tessalônica". É próprio do estilo Paulino fazer elogio ou
agradecer a Deus por algum aspecto positivo da comunidade. Porém, isso não é
argumento para sustentar que a Igreja Romana era superior em relação as outras.
No texto citado por você, Paulo diz: "porque em todo o mundo, é proclamada
a vossa fé". Aqui se faz referência ao conhecimento que os cristãos de
todos os lugares tinham dos irmãos de Roma. Paulo coloca ênfase no fato dos
Romanos terem fé e não na obra de sua difusão.
PRIMAZIA
DA IGREJA DE ROMA SOBRE AS DEMAIS
- Beta:
“Os apóstolos Pedro e Paulo foram mortos em Roma, por isso, a Igreja Romana tem
primazia sobre as demais igrejas”.
- O
fato de Pedro e Paulo terem morrido em Roma não é argumento para justificar a
primazia da Igreja Romana sobre as demais igrejas. Caso consideremos esse
argumento verdadeiro, seria mais coerente afirmar que Jerusalém deveria ser a
Igreja que teria domínio sobre as outras, pois lá morreu o fundador e o
fundamento do Cristianismo, Jesus.
PEDRO E
O PAPADO
- Beta:
“Pedro foi o primeiro papa, o chefe da Igreja de Roma. Esta verdade está
fundamentada em Mt 16,18: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta
pedra edificarei a minha igreja”.
- Essa
ideia de chefe único da Igreja (papado) é bem posterior ao tempo dos
apóstolos. Cada Igreja tinha suas lideranças.
O responsável pela Igreja de Jerusalém, berço do Cristianismo, era o apóstolo
Tiago (At 15.13).
Com relação ao texto de
Mateus 16 convém um melhor aprofundamento. O texto original diz: “ὅτι σὺ εἶ Πέτρος” (“Tu és Pedro (petros em grego: pedregulho), “καὶ ἐπὶ ταύτῃ τῇ πέτρᾳ οἰκοδομήσω μου τὴν ἐκκλησίαν” “e sobre esta
pedra (Petra em grego, Rocha) edificarei a minha Igreja (ecclesia, sentido de
convocados, os que escutaram a convocação).
Jesus na constrói sua
Igreja sobre Pedro, porque é fraco (pedregulho), mas sobre a fé de Pedro em
Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16) . Jesus é a Petra, a Rocha.
Paulo diz que Jesus é a Pedra principal: “Edificados sobres o fundamento dos
apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Ef
2.20). O próprio Pedro entendeu que a Pedra é Cristo e nele devemos crer,
quando diz, citando a Escritura judaica: “Por isso está na Escritura: Eis que
ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será,
de modo algum, envergonhado” (1Pd 2.6).
Sendo a fé em Cristo o
fundamento da Igreja, “ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi
posto, o qual é Jesus Cristo” (1Cor 3.11), assevera o apóstolo Paulo.
Não podemos negar a
importância de Pedro e dos demais apóstolos, mas jamais podemos achar que Jesus
esteja ali fundando uma instituição religiosa ao modo como pensamos hoje ou
estivesse instituindo o papado romano, onde Pedro seria o chefe.
- Beta: “Em 1 Pedro 2.4,
Jesus é chamado de 'pedrinha viva'. λίθον (Lithos) é pedrinha”.
- A tradução está
equivocada. “Λίθος” , em grego, significa: Pedra, pedra de disco, pedra
preciosa, mármore. Λιθιδιον é o termo grego para Pedra pequena. O texto da
Carta de Pedro não tem o termo Λιθιδιον (Pedra pequena). Jesus é Λίθος no
sentido de preciosa e não no sentido de ser a menor (pedrinha).
- Beta: “Λίθος é uma
pedra pequena em comparação com πέτρα”.
- “Lithos” é uma palavra
polissêmica , o seu significado vai depender do contexto. No texto de 1Pd 2 a
palavra preciosa (entimon) se apresenta três vezes nos versículos 4, 6, 7.
Assim, seu contexto indica que se trata de pedra preciosa. A compreensão de
“lithos” como Jesus sendo a “pedra pequenina”, não tem conformidade com o
contexto. Por favor, pode apresentar alguma tradução da Bíblia em que "lithos"
é traduzido por "pedrinha"?
- Beta: “Pedro é o chefe
da Igreja porque Jesus deu as chaves o reino dos céus (Cf. Mt 16,19) e confiou
a missão de apascentar suas ovelhas ao mesmo” (Cf. Jo 21,15-17).
- Não podemos entender
esse "apascentar" como poder sobre toda a Igreja. As ovelhas
confiadas a Pedro são aquelas que sem encontram entre os circuncisos (judeus)
para quem foi designado para pregar. Todas as ovelhas não foram confiadas a
Pedro. O texto de Jo 21.16 não tem a expressão "Todas" indicando
universalidade. É a todos os apóstolos que Jesus confiou esse ministério de
apascentar, ou seja, de pregar e ensinar: "Ide por todo o mundo, proclamai
o Evangelho a toda criatura" (Mc 16.15). Observe que o pastoreio a
"toda criatura" é confiada não só a Pedro, mas a todos os apóstolos
(a Igreja). "E eles saíram a pregar por toda a parte" (Mc 16.20).
Ora, sendo que nenhum dos apóstolos foi instituído ou enviado por Pedro, também
não podemos concluir que todas as ovelhas foram confiadas a Pedro. Cada
apóstolo, em cada lugar onde chegava e era aceito o Evangelho, uma Igreja ali
se fazia presente e era apascentada pelo mesmo. O Novo Testamento não mostra nenhum
"poder" especial que conferia a Pedro o direito de apascentar os
cristãos de todas as Igrejas ou autoridade sobre os demais apóstolos. Pelo
contrário, os apóstolos de Jerusalém tinham autoridade sobre Pedro para enviá-lo em missão (Cf. At 8.14).
Os católicos romanos
defendem que Jesus deu as "chaves" (Cf. Mt 16.19) somente para Pedro
e seus sucessores da Igreja Romana. Se assim é verdade, teremos que admitir que
também as palavras de Jesus: "afasta-te de mim satanás! Tu me serve de
pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens"
(Mt 16.23), devem ser atribuídas somente a Pedro e aos seus sucessores da
Igreja Romana. E outros apóstolos, também não receberam as chaves, não foram
sucessores de Pedro e nem bispos da Igreja Romana?
O poder das chaves foi
dado para todos e não somente para Pedro e consiste não em poder, mas em ser
portador do perdão divino, perdoar pecados (Cf. Mt 18.17-20; Jo 20.22-23).
PEDRO FOI BISPO DE ROMA?
- Beta: “Pedro foi o primeiro
bispo de Roma. Este fato é comprovado pela Tradição e pela Bíblia (Cf. 1Pd
5,13).
- Não existe evidência bíblica que
confirme que Pedro foi bispo de Roma. O texto de 1Pd 5.13 que diz: “A que está
em Babilônia, eleita como vós, vos saúda”, convém ser interpretado com muita
prudência. No contexto neotestamentário, essa analogia de “Babilônia” com
“Roma” somente tem clara evidência no Livro do Apocalipse (14,8;16,9; 17,5),
escrito por volta do ano 95 d.C. O gênero literário da Primeira Carta de Pedro
não é apocalíptico. Assim, não havia razões para Pedro falar de Roma de forma
“misteriosa”. A Babilônia mencionada por Pedro poderia ser uma cidade
localizada às margens do Rio Eufrates, onde existia uma enorme presença de
judeus. Pedro, para quem foi “confiado o Evangelho dos circuncisos” (Cf. Gl 2.8),
é possível quem tenha pregado naquela região.
Os argumentos com base na
Patrística parecem que são frutos de interpretações que tentam alinhar a morte
de Pedro em Roma com seu ministério. Eusébio de Cesareia (265-339 d.C.) diz que
Lino foi o primeiro bispo de Roma: “Depois do martírio de Paulo e Pedro, Lino
foi designado como primeiro bispo de
Roma. Ele é mencionado por Paulo quando escreve de Roma a Timóteo, na
despedida ao final da carta” (História Eclesiástica, Livro III, 4,9). Alguém
poderá questionar que a expressão “depois do martírio de Paulo e Pedro” é um
indicativo que Lino foi o sucessor de Pedro após o seu martírio. Porém, a
expressão parece mais indicar uma contextualização histórica, tendo em vista
que menciona também a morte do apóstolo Paulo (que não foi bispo de Roma) do
que demonstrar uma sucessão do bispado. Segundo Eusébio, Pedro pregou em várias
regiões, “por fim chegou a Roma e
foi crucificado com a cabeça para baixo, como ele mesmo pediu para sofrer”
(História Eclesiástica, Livro III, 1,2). A chegada de Pedro a Roma ocorreu no
final de sua vida. Se Pedro estava o tempo todo em Roma como Bispo não havia
necessidade de Eusébio afirmar que “chegou a Roma”. Convém lembrar que a Igreja
Católica sempre foi detentora dos escritos dos Padres da Igreja. Que garantia
temos que os textos da Patrística não foram adulterados para justificar o
posicionamento da Igreja Católica Romana de que Pedro foi bispo de Roma?
Trata-se apenas de um questionamento e não de uma afirmação. Portanto, entre as
narrativas bíblicas que não afirmam que Pedro foi bispo de Roma e as várias
interpretações da Patrística, prefiro ficar com a fonte bíblica.
Sabemos que Paulo escreveu a
Carta aos Romanos no ano 55 d.C. Segundo
defende a ICAR, Pedro chegou em Roma no ano 42, ou seja, quando Paulo
escreveu sua carta aos Romanos, Pedro já era bispo há 13 anos. Não parece
estranho que Pedro tendo um bispado consolidado em Roma não seja mencionado por
Paulo no endereço (Rm 1-7) e nas saudações (Rm 16.1-16) da Carta aos Romanos?
Parece bastante sensato o comentário da Bíblia Edição Pastoral da ICAR sobre a
Igreja de Roma: “Nada sabemos sobre a origem da comunidade cristã de Roma, nem
sobre suas condições na época de Paulo. As únicas informações são as que podem
tirar desta carta. [...] Prisca e Áquila, um casal judeu-cristão, vítimas dessa
expulsão, foram para Corinto, onde se encontram com Paulo (At 18.1-3), que
realizava a segunda viagem missionária (50-52 d.C.). É através deles que Paulo
fica informado sobre a situação dos cristãos em Roma”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Igreja de Cristo não é
identificada por uma localidade geográfica especifica (Roma), por uma Pessoa (Papa),
pelo poder sua estrutura organizacional (Instituição), pelo CGC (cadastro geral
de contribuintes), pela cor ou estrutura de templos. A Igreja é o corpo de Cristo. Ele é a Cabeça , o único e supremo Pastor da Igreja.
*******************
Lúcio Rufino Pinheiro

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