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segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

IGREJA DE CRISTO E PAPADO (DEBATE)



A IGREJA DE CRISTO PODE SER RESUMIDA EM UMA ÚNICA INSTITUIÇÃO, A ROMANA?

 - Beta: “A Igreja Católica Romana foi a única fundada por Cristo”.

- A Igreja Católica Apostólica não pode ser reduzida a uma única instituição, a Igreja de Roma. A história aponta que, no início da expansão do cristianismo, havia vários núcleos do Cristianismo: Jerusalém, Samaria, Antioquia, Roma, etc. O que aconteceu é que Roma tomou para si o poder sobre as outras comunidades. Além do mais, não podemos resumir a Igreja a uma instituição religiosa. A Igreja é o corpo místico de Cristo, a esposa do Cordeiro.  A Igreja ela não é de Pedro, Paulo, João, mas de todos os que foram redimidos e levados no sangue de Jesus. Fazem parte da Igreja de Jesus todos aqueles que acreditam na sua Palavra, que escutam a voz do verdadeiro pastor, Jesus. Dessa Igreja, segundo o ancião (presbítero) Pedro , Jesus é o "sumo Pastor" (1Pd 5.4).
É preciso ter cuidado com esse discurso que considera a Igreja Católica Romana como a única verdadeira. Esse tipo de discurso acaba por negar a autenticidade das outras tradições cristãs.

Beta: “A única Igreja de Cristo é Católica”.

- Sim, a Igreja de Cristo é Católica e não a Igreja Romana. Pois Católica é uma característica da Igreja (At 1.8). Dessa Igreja fazem parte todas as testemunhas de Cristo em todas as partes do mundo. Romana não é atributo da Igreja Cristã. Isso se comprova pelos credos mais antigos.  A unicidade, catolicidade e apostolicidade da Igreja estão além de uma instituição específica. Caso contrário, teríamos que negar a autenticidade de todas as Igrejas que não têm comunhão com a Igreja Romana. Cristo não fica satisfeito quando querem colocar suas ovelhas no único cercado romano. Essa compreensão de Igreja cristã é reducionista e equivocada.

- Beta: "A  verdadeira Igreja de Cristo é visível na instituição, na sua organização hierárquica" .

- A verdadeira Igreja de Cristo encontra-se no plano espiritual e não institucional. A dimensão externa da Igreja embora seja necessária neste mundo, não se configura como uma característica essencial da Igreja de Jesus.   “Ora,  vós sois o corpo de Cristo, e  individualmente seus membros" (1Co 12.27). "Grande  é este mistério, mas eu falo  em referência a Cristo e à Igreja" (Ef 5.32).
A Igreja é o corpo místico de Cristo (Ef 1.22,23). O apóstolo Paulo pontua um detalhe importante: “o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo” (1Co 12.12). Quem está unido a Jesus (cabeça) é membro do corpo (Igreja). Paulo trata a Igreja em sentido espiritual e não institucional. Aliás,  muitas vezes,  Paulo usa o termo εκκλησια  no plural : "αι εκκλησιαι του χριστου"  (as Igrejas de Cristo) (Rm 16.16). É notório que Paulo estava se referindo aos cristãos que, nos mais diversos lugares ouviram a pregação do Evangelho, se converteram e decidiram seguir a Jesus. 

- Beta: “A fé da única Igreja Católica é aquela professada pela Igreja Romana (Romanos 1.7,8)”.

- "Porque, partindo de vós fez-se ouvir a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e na Acaia, mas também em todos os lugares a vossa fé para com Deus se divulgou, de tal maneira que não temos necessidade de falar coisa alguma" (1Ts 1.8). Paulo fala da comunidade de Tessalônica. Com base na sua interpretação, poderia muito bem dizer que "a fé da única Igreja Católica é aquela professada pela Igreja de Tessalônica". É próprio do estilo Paulino fazer elogio ou agradecer a Deus por algum aspecto positivo da comunidade. Porém, isso não é argumento para sustentar que a Igreja Romana era superior em relação as outras. No texto citado por você, Paulo diz: "porque em todo o mundo, é proclamada a vossa fé". Aqui se faz referência ao conhecimento que os cristãos de todos os lugares tinham dos irmãos de Roma. Paulo coloca ênfase no fato dos Romanos terem fé e não na obra de sua difusão.

PRIMAZIA DA IGREJA DE ROMA SOBRE AS DEMAIS

- Beta: “Os apóstolos Pedro e Paulo foram mortos em Roma, por isso, a Igreja Romana tem primazia sobre as demais igrejas”.

- O fato de Pedro e Paulo terem morrido em Roma não é argumento para justificar a primazia da Igreja Romana sobre as demais igrejas. Caso consideremos esse argumento verdadeiro, seria mais coerente afirmar que Jerusalém deveria ser a Igreja que teria domínio sobre as outras, pois lá morreu o fundador e o fundamento do Cristianismo, Jesus.

PEDRO E O PAPADO

- Beta: “Pedro foi o primeiro papa, o chefe da Igreja de Roma. Esta verdade está fundamentada em Mt 16,18: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”.

- Essa ideia de chefe único da Igreja (papado) é bem posterior ao tempo dos apóstolos.  Cada Igreja tinha suas lideranças. O responsável pela Igreja de Jerusalém, berço do Cristianismo, era o apóstolo Tiago (At 15.13).
Com relação ao texto de Mateus 16 convém um melhor aprofundamento. O texto original diz: ὅτι σὺ εἶ Πέτρος” (“Tu és Pedro (petros em grego: pedregulho), “καὶ ἐπὶ ταύτῃ τῇ πέτρᾳ οἰκοδομήσω μου τὴν ἐκκλησίαν  “e sobre esta pedra (Petra em grego, Rocha) edificarei a minha Igreja (ecclesia, sentido de convocados, os que escutaram a convocação).
Jesus na constrói sua Igreja sobre Pedro, porque é fraco (pedregulho), mas sobre a fé de Pedro em Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16) . Jesus é a Petra, a Rocha. Paulo diz que Jesus é a Pedra principal: “Edificados sobres o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Ef 2.20). O próprio Pedro entendeu que a Pedra é Cristo e nele devemos crer, quando diz, citando a Escritura judaica: “Por isso está na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será, de modo algum, envergonhado” (1Pd 2.6).
Sendo a fé em Cristo o fundamento da Igreja, “ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1Cor 3.11), assevera o apóstolo Paulo.
Não podemos negar a importância de Pedro e dos demais apóstolos, mas jamais podemos achar que Jesus esteja ali fundando uma instituição religiosa ao modo como pensamos hoje ou estivesse instituindo o papado romano, onde Pedro seria o chefe.

- Beta: “Em 1 Pedro 2.4, Jesus é chamado de 'pedrinha viva'. λίθον (Lithos) é pedrinha”.

- A tradução está equivocada. “Λίθος” , em grego, significa: Pedra, pedra de disco, pedra preciosa, mármore. Λιθιδιον é o termo grego para Pedra pequena. O texto da Carta de Pedro não tem o termo Λιθιδιον (Pedra pequena). Jesus é Λίθος no sentido de preciosa e não no sentido de ser a menor (pedrinha).

- Beta: “Λίθος é uma pedra pequena em comparação com πέτρα”.

- “Lithos” é uma palavra polissêmica , o seu significado vai depender do contexto. No texto de 1Pd 2 a palavra preciosa (entimon) se apresenta três vezes nos versículos 4, 6, 7. Assim, seu contexto indica que se trata de pedra preciosa. A compreensão de “lithos” como Jesus sendo a “pedra pequenina”, não tem conformidade com o contexto. Por favor, pode apresentar alguma tradução da Bíblia em que "lithos" é traduzido por "pedrinha"?

- Beta: “Pedro é o chefe da Igreja porque Jesus deu as chaves o reino dos céus (Cf. Mt 16,19) e confiou a missão de apascentar suas ovelhas ao mesmo” (Cf. Jo 21,15-17).

- Não podemos entender esse "apascentar" como poder sobre toda a Igreja. As ovelhas confiadas a Pedro são aquelas que sem encontram entre os circuncisos (judeus) para quem foi designado para pregar. Todas as ovelhas não foram confiadas a Pedro. O texto de Jo 21.16 não tem a expressão "Todas" indicando universalidade. É a todos os apóstolos que Jesus confiou esse ministério de apascentar, ou seja, de pregar e ensinar: "Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura" (Mc 16.15). Observe que o pastoreio a "toda criatura" é confiada não só a Pedro, mas a todos os apóstolos (a Igreja). "E eles saíram a pregar por toda a parte" (Mc 16.20). Ora, sendo que nenhum dos apóstolos foi instituído ou enviado por Pedro, também não podemos concluir que todas as ovelhas foram confiadas a Pedro. Cada apóstolo, em cada lugar onde chegava e era aceito o Evangelho, uma Igreja ali se fazia presente e era apascentada pelo mesmo. O Novo Testamento não mostra nenhum "poder" especial que conferia a Pedro o direito de apascentar os cristãos de todas as Igrejas ou autoridade sobre os demais apóstolos. Pelo contrário, os apóstolos de Jerusalém  tinham autoridade sobre Pedro para enviá-lo em missão (Cf. At 8.14).
Os católicos romanos defendem que Jesus deu as "chaves" (Cf. Mt 16.19) somente para Pedro e seus sucessores da Igreja Romana. Se assim é verdade, teremos que admitir que também as palavras de Jesus: "afasta-te de mim satanás! Tu me serve de pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens" (Mt 16.23), devem ser atribuídas somente a Pedro e aos seus sucessores da Igreja Romana. E outros apóstolos, também não receberam as chaves, não foram sucessores de Pedro e nem bispos da Igreja Romana?
O poder das chaves foi dado para todos e não somente para Pedro e consiste não em poder, mas em ser portador do perdão divino, perdoar pecados (Cf. Mt 18.17-20; Jo 20.22-23).

PEDRO FOI BISPO DE ROMA?

- Beta: “Pedro foi o primeiro bispo de Roma. Este fato é comprovado pela Tradição e pela Bíblia (Cf. 1Pd 5,13).

- Não existe evidência bíblica que confirme que Pedro foi bispo de Roma. O texto de 1Pd 5.13 que diz: “A que está em Babilônia, eleita como vós, vos saúda”, convém ser interpretado com muita prudência. No contexto neotestamentário, essa analogia de “Babilônia” com “Roma” somente tem clara evidência no Livro do Apocalipse (14,8;16,9; 17,5), escrito por volta do ano 95 d.C. O gênero literário da Primeira Carta de Pedro não é apocalíptico. Assim, não havia razões para Pedro falar de Roma de forma “misteriosa”. A Babilônia mencionada por Pedro poderia ser uma cidade localizada às margens do Rio Eufrates, onde existia uma enorme presença de judeus. Pedro, para quem foi “confiado o Evangelho dos circuncisos” (Cf. Gl 2.8), é possível quem tenha pregado naquela região.
Os argumentos com base na Patrística parecem que são frutos de interpretações que tentam alinhar a morte de Pedro em Roma com seu ministério. Eusébio de Cesareia (265-339 d.C.) diz que Lino foi o primeiro bispo de Roma: “Depois do martírio de Paulo e Pedro, Lino foi designado como primeiro bispo de Roma. Ele é mencionado por Paulo quando escreve de Roma a Timóteo, na despedida ao final da carta” (História Eclesiástica, Livro III, 4,9). Alguém poderá questionar que a expressão “depois do martírio de Paulo e Pedro” é um indicativo que Lino foi o sucessor de Pedro após o seu martírio. Porém, a expressão parece mais indicar uma contextualização histórica, tendo em vista que menciona também a morte do apóstolo Paulo (que não foi bispo de Roma) do que demonstrar uma sucessão do bispado.   Segundo Eusébio, Pedro pregou em várias regiões, “por fim chegou a Roma e foi crucificado com a cabeça para baixo, como ele mesmo pediu para sofrer” (História Eclesiástica, Livro III, 1,2). A chegada de Pedro a Roma ocorreu no final de sua vida. Se Pedro estava o tempo todo em Roma como Bispo não havia necessidade de Eusébio afirmar que “chegou a Roma”. Convém lembrar que a Igreja Católica sempre foi detentora dos escritos dos Padres da Igreja. Que garantia temos que os textos da Patrística não foram adulterados para justificar o posicionamento da Igreja Católica Romana de que Pedro foi bispo de Roma? Trata-se apenas de um questionamento e não de uma afirmação. Portanto, entre as narrativas bíblicas que não afirmam que Pedro foi bispo de Roma e as várias interpretações da Patrística, prefiro ficar com a fonte bíblica.  
Sabemos que Paulo escreveu a Carta aos Romanos no ano 55 d.C. Segundo  defende a ICAR, Pedro chegou em Roma no ano 42, ou seja, quando Paulo escreveu sua carta aos Romanos, Pedro já era bispo há 13 anos. Não parece estranho que Pedro tendo um bispado consolidado em Roma não seja mencionado por Paulo no endereço (Rm 1-7) e nas saudações (Rm 16.1-16) da Carta aos Romanos? Parece bastante sensato o comentário da Bíblia Edição Pastoral da ICAR sobre a Igreja de Roma: “Nada sabemos sobre a origem da comunidade cristã de Roma, nem sobre suas condições na época de Paulo. As únicas informações são as que podem tirar desta carta. [...] Prisca e Áquila, um casal judeu-cristão, vítimas dessa expulsão, foram para Corinto, onde se encontram com Paulo (At 18.1-3), que realizava a segunda viagem missionária (50-52 d.C.). É através deles que Paulo fica informado sobre a situação dos cristãos em Roma”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Igreja de Cristo não é identificada por uma localidade geográfica especifica (Roma), por uma Pessoa (Papa), pelo poder sua estrutura organizacional (Instituição), pelo CGC (cadastro geral de contribuintes), pela cor ou estrutura de templos.  A Igreja é o corpo de Cristo. Ele é a Cabeça , o único e supremo Pastor da Igreja.

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Lúcio Rufino Pinheiro

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