Total de visualizações de página

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

VIRGINDADE PERPÉTUA DE MARIA (DEBATE)



MARIA FOI VIRGEM, ANTES, DURANTE E DEPOIS DO PARTO?

- Não temos dúvida com relação à virgindade de Maria antes e durante o parto. Porém, depois do parto, não há nenhum fundamento bíblico que diga que ela permaneceu virgem. As justificativas dos católicos romanos sobre a virgindade perpétua de Maria são diversas e sem sustentação bíblica: Os irmãos de Jesus mencionados nos evangelhos eram filhos de José com sua primeira esposa; filhos de outra Maria; primos, parentes de Jesus.  Simplesmente bastaria uma leitura de Mt 1.25 para compreendermos que Maria não permaneceu virgem após o parto: "e não a conheceu enquanto ela não deu à luz um filho". "Enquanto" não deu à luz. Depois, tiveram filhos, como testificam os Evangelhos. Prefiro acreditar na Bíblia a ter que acreditar em argumentos com base em histórias ou interpretações forçadas do texto bíblico.
Biologicamente falando, com o parto de Maria ocorreu o rompimento do hímen, ou seja, deixou de ser virgem. A Bíblia não fala em um milagre em seu parto. Os relatos que temos são apócrifos.
Na tradição judaica uma mulher morrer virgem ou sem ter filho era uma vergonha, uma maldição. Um exemplo clássico na Bíblia é o da filha de Jefté (Jz 11.29-40). Ela pede ao Pai para chorar com suas amigas porque ia morrer virgem. "Então ela se foi com as suas companheiras, e chorou a sua virgindade pelos monte" (Jz 11.38). Ter filhos na tradição judaica é uma bênção. Maria não foi uma mulher menos agraciada, santa, porque teve outros filhos. A Bíblia é simples, clara. Não precisa inventar histórias para explicar o inexplicável.

- Gama: “O termo “até” usado por Mateus 1.25 não indica  mudança de condição, ou seja, Maria continuou sem ter relações sexuais com José”.

- O termo grego “ἕως” é uma conjunção e significa: Até que, enquanto, a fim de que.  No novo Testamento, “ἕως aparece várias vezes no sentido de mudança de condição, ação (Cf. Mt 2.13; 5.18; 1Co 15.25; Fl 1.10; At 20.11; 23.12; Ap 7.3). A conjunção  “ἕως” indica  temporalidade (aquilo que não é permanente). Assim, José não teve relações sexuais com Maria durante o tempo de sua gravidez, mas depois, eles tiveram relacionamentos íntimos próprios de marido e mulher.

- Gama: “Virgem conceberá e virgem dará a luz, onde na Bíblia fala de outros filhos de Maria. Você contraria a própria Bíblia, que diz que a virgem conceberá um filho, não dois, apenas um...”

- Esse "um" não é numeral, mas artigo.  Língua portuguesa: um, uma, uns, umas. Segundo a regra: "quando na oração aparecer os termos “apenas um” ou “somente um”, a classificação que devemos atribuir ao vocábulo “um” será sempre a de numeral". Não é o caso do texto. Para "um" ser numeral em grego tinha que aparecer os termos: ενας, μια, ενα - Estes termos não aparecem no texto grego.
Jesus é o filho primogênito de Maria
(“prototokos”) (Primogênito, primeiro nascido de uma mulher (Cf. Lc 2.7)
e unigênito de Deus (monogenes, em grego é usado pelas Escrituras com o sentido de filho único - Cf. Jo 3.16).
 Os nomes dos irmãos de Jesus mencionados nos textos bíblicos são: Tiago, José, Judas e Simão (Marcos 6.3). Sobre os irmãos de Jesus temos as seguintes referências: Mt 12.46,47; 13.55,56; Mc 3.31,32; 6.3; Lc 8.19,20; Jo 2.12; 7.3,5,10; At 1.14; 1 Cor 9.5).

- Gama: “Sobre os irmãos de Jesus, em nenhum lugar do NT está escrito que eram filhos de Maria”.

- "Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E não convivem conosco suas irmãs? E ficaram escandalizados por causa dele" (Mc 6.3). Nazaré não era uma megalópole que as pessoas não se conheciam, não sabiam quem eram os irmãos de Jesus e seus pais.

- Gama: “O texto de Marcos 6.3 não diz que os irmãos de Jesus eram filhos de Maria. Com respeito a isso, há duas teses:
- os irmãos de Jesus seriam filhos de José de um casamento anterior (posição defendida pelos cristãos ortodoxos); - os irmãos de Jesus seriam parentes próximos (posição defendida por São Jerônimo e amplamente aceita na Igreja Católica)”.  

- Se você prefere acreditar em glosas a ter que acreditar no próprio texto das Escrituras é uma escolha sua. Porém, não podemos distorcer ou adicionar ao texto bíblico informações simplesmente para justificar uma doutrina. O texto mostra que há uma relação dos irmãos de Jesus com Maria.
Como não há uma única informação na Bíblia que José era viúvo quando casou com Maria e teve filhos com sua primeira esposa, temos que admitir que os referidos irmãos de Jesus sejam filhos de Maria e José.

- Gama: “Em relação ao termo 'primogênito', trata-se de título de herança. Portanto, todo filho único é primogênito”.

- Primogênito é o termo utilizado para designar o primeiro filho de um casal, também conhecido como o filho mais velho, em relação aos seus irmãos consanguíneos. Quando na família se tem apenas um filho, não tem sentido usar o termo primogênito, mas unigênito.  
O primogênito tinha o direito de primogenitura que consistia em ocupar posto de liderança na família e receber bênção (Cf Gn 27.27-29). Na tradição de Israel, mesmo que um homem tivesse dois filhos com mulheres diferentes e amasse mais a mãe do seu segundo filho, o direito de primogenitura era sempre do primeiro filho (Cf. Dt 21.15-17).
Quando Lucas diz que Maria “deu à luz seu filho primogênito” (2.7) não estava se referindo ao título de herança, mas ao fato de ser o seu primeiro filho. É diferente do sentido usado por Paulo quando diz que Jesus é “o primogênito de toda a criação” (Cl 1.15). Aqui, primogênito não significa que Jesus foi o primeiro a ser criado, mas que o mesmo é privilegiado, “pois tudo foi criado por meio dele e para ele”, explica Paulo (Cl 1. 16).
 Os textos bíblicos usam de forma adequada os termos primogênito e unigênito: "Quando chegou perto da porta da cidade, eis que levavam para fora um defunto, filho único de sua mãe, que era viúva; e com ela ia uma grande multidão da cidade” (Lc 7.12).

- Gama: “Definição bíblica de primogênito: "Santifica-me todo o primogênito, o que abrir toda a madre entre os filhos de Israel, de homens e de animais; porque meu é." Êxodo 13.2”.

- Ninguém questiona que primogênito seja o primeiro filho. Não era costume entre os judeus ter apenas um filho, pois quanto mais filhos tivesse uma família era sinal da bênção de Deus.

- Gama: “Não é possível provar pelas Escrituras que Maria teve outros filhos além de Jesus. Veja o caso de Tiago, o irmão do Senhor (Gálatas 1.19). Ele era um dos doze e filho de Alfeu”.

- Já mencionamos vários textos que mostram que os irmãos de Jesus são mencionados relacionados com Maria.
Tiago era um nome popular no tempo de Jesus. No novo Testamento conhecemos algumas pessoas com o nome de Tiago: Tiago, filho de Zebedeu, irmão de João (Cf. Mt 10.2); Tiago, filho de Alfeu (Cf. Mt 10.3; Mc 15.40) , Tiago, pai de Judas apóstolo (Cf. Lc 6.16; At 1.13) e Tiago, irmão de Jesus. O Tiago mencionado em Gl 1.19 é irmão de Judas (Cf. Jd 1.1; Mc 6.3) e “irmão do Senhor”. Tudo indica que os dois irmãos de Jesus, Tiago e Judas, converteram-se após sua ressurreição e estavam com Maria no cenáculo (Cf. At 1.14). Tiago tornou-se líder da Igreja de Jerusalém (At 15,1-21;21.18; 1Co 15.7) e apóstolo (Gl 1.9), apesar de não fazer parte do número dos doze. O Tiago mencionado na Carta aos Gálatas não é o filho de Alfeu, mas o irmão de Jesus.
O famoso historiador judeu, Flavio Josefo, menciona Tiago como o irmão do Senhor (Cf. História dos Hebreus, CPAD, Livro 20.8.856). Assim, temos não só a base bíblica, mas também o dado histórico para afirmar que o Tiago mencionado era verdadeiramente irmão de Jesus.

- Gama: “Se Maria, tinha outros filhos, por que Jesus confiou sua mãe para João e não para algum dos seus irmãos?”

- Os relatos dos evangelhos mostram que os irmãos de Jesus não acreditaram nele (Cf. Jo 7.5). Segundo informações que temos do NT, apenas Tiago e Judas converteram-se à fé cristã após a ressurreição de Jesus. Nesse cenário de incredulidade da sua própria família, Jesus confia sua mãe aos cuidados do apóstolo João na hora de sua morte (Cf. Jo 19.26).

- Gama: “Os irmãos de Jesus são primos, pois no hebraico é utilizada a mesma palavra para primo e irmão”.

- O argumento não se sustenta quando levamos em consideração que o NT foi escrito em grego e não em hebraico. Além disso, na língua grega, temos palavras diferentes para irmão (ἀδελφός -adelfós- Cf. Lc 8.19-20; At 1.14) primo (ἀνεψιὸς - anepsios – Cf. Cl 4.10) e parente próximo (συγγενίς – suggenes- Cf. Lc 1.36; 1.58; 2.44;14.12; Jo 18.26;At 10.24; Rm 9.3;16.7,11,21).

- Gama: “Os chamados irmãos de Jesus eram seus discípulos”.

- Quando os evangelhos usam o termo “adelfós” (irmão) em relação aos irmãos de Jesus eles ainda não acreditavam nele (Cf. Jo 7.5). Por isso, não tem sentido dizer que o termo “adelfós” foi empregado no sentido de pertencer à mesma fé, ao mesmo discipulado.  Além disso, há algumas passagens da Bíblia onde os irmãos de Jesus são mencionados juntamente com os discípulos de forma distinta (Cf. Jo 2.12; At 1.13,14; 1Cor 9.5).

- Gama: “Maria perguntou ao Anjo da Anunciação: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem?” (Lc 1.34). Certamente, ela não teria dito isso se anteriormente não houvesse consagrado sua castidade a Deus. Nossa Senhora fez essa consagração antes de saber que seria a Mãe do Filho do Altíssimo

- A pergunta de Maria ao anjo em nada prova que a mesma questionou o anjo porque tinha feito uma consagração a Deus de sua castidade, mas, como o próprio texto deixa claro, porque não entendeu como teria um filho sem relação sexual. Além disso, não encontramos na Bíblia nenhum relato que Maria tinha feito uma consagração a Deus para permanecer virgem. Pelo contrário, Lucas diz que Maria estava desposada, noiva, de José (Cf. Lc 1. 27). Se Maria tivesse feito um voto de consagração de sua virgindade seu casamento seria apenas um fingimento, uma mentira, uma espécie de “aparência social”. Se ela fez o voto depois de casada, seu casamento nunca foi consumado, pois, para isso, convém que ocorra o ato sexual. Não encontramos nenhum ensinamento bíblico que oriente que o marido e a esposa devam viver como irmãos. A privação do sexo no casamento é consentida apenas por algum tempo determinado para o casal dedicar-se à oração. Porém, passado esse tempo, convém que o casal tenha relações sexuais para não cair em tentação. Assevera Paulo: “O marido conceda à esposa o que lhe é devido, e também, semelhantemente, a esposa, ao seu marido. A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim o marido; e também, semelhantemente, o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim a mulher. Não vos priveis um ao outro, salvo talvez por mútuo consentimento, por algum tempo, para vos dedicardes à oração e, novamente, vos ajuntardes, para que Satanás não vos tente por causa da incontinência” (1Co 7.3-5).

Gama: “Maria continuou virgem após o parto, pois a virgindade é superior ao estado matrimonial”.

- O estado de virgindade é um conselho de Paulo para privar das preocupações e cuidar mais das coisas do Senhor (Cf. 1Cor 7. 25-35). No entanto, em nenhum momento o apóstolo afirmou que o estado de virgindade é superior ao estado matrimonial ou que justifique uma pessoa diante de Deus pelo seu sacrifício de manter-se casto. Se o estado de virgindade é um conselho paulino, o matrimônio e a união sexual são mandamentos divinos (Gn 1.28; 2.24; Mt 19.4-6). É evidente que o mandamento tem maior autoridade que um conselho.
Uma leitura atenta da Bíblia nos permite inferir que a relação sexual é parte essencial do casamento (Cf. Pv 5.18,19; Hb 13.4; 1Co 7.3-9).
A compreensão de que o matrimônio é menos digno de estima do que a virgindade não tem respaldo na Bíblia, mas foi disseminada por tradições humanas que concebiam o sexo como ato pecaminoso, impuro. Ainda no Concílio de Trento (1545-1563) encontramos uma defesa ferrenha da virgindade: “Se alguém disser que o estado matrimonial deve ser colocado acima do estado da virgindade ou do celibato, e que não é melhor e mais abençoado permanecer em virgindade ou em celibato do que se unir em matrimônio, que seja anátema” (Sessão 24, cânon 10).
Portanto, o casamento é remédio contra impureza (Cf. 1Cor 7.1) e não lugar de pecado. O ato sexual não torna uma pessoa imperfeita diante de Deus.  Ele faz parte do estado matrimonial e não pode ser negado por algum dos cônjuges, como ensina Paulo: “O marido conceda à esposa o que lhe é devido, e também, semelhantemente, a esposa, ao seu marido” (1Co 7.3).
Maria não foi agraciada por Deus pelo seu estado de virgindade antes e durante o parto, mas, como ela mesma disse, “Porque contemplou a humildade da sua serva”, “porque o Poderoso me fez grandes coisas” (Lc 1.48,49).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Maria foi uma discípula fiel de seu próprio Filho. Ela viveu, como ninguém, o mandamento que deu aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2.5).  Dizer que ela não permaneceu virgem depois do nascimento de Jesus não a diminui em nada, pois a principal pureza, que é a do coração, Maria conservou quando guardava e meditava as palavras do Senhor (Cf. Lc 2.51). Maria foi bem-aventurada por ser a mãe do Salvador e muito mais por está inclusa entre aqueles “que ouvem a palavra de Deus e guardam!” (Lc 11.27-28).
Esta é a virgindade perpétua que Maria preservou: ser serva humilde e disponível para a graça de Deus em sua vida: “Aqui está a serva do Senhor, que se cumpra em mim conforme a tua palavra” (Lc 1.38). A virgindade espiritual é muita mais significativa do que qualquer virgindade física.

********************
Lúcio Rufino Pinheiro

Nenhum comentário:

Postar um comentário