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sexta-feira, 28 de junho de 2019

"MAIS VALE SABEDORIA DO QUE ARMAS" ( Ecl 9,18a)


“Mais vale sabedoria do que armas” (Ecl 9,18a, Bíblia de Jerusalém, nova edição, revista e ampliada). A Edição Pastoral usa o termo "instrumentos de guerra". A palavra usada por várias traduções em grego é δύναμιν, que significa a força humana com todos os seus instrumentos de batalha. Os versículos 14-15 do capítulo 9 de Eclesiastes indicam que o contexto trata da força da sabedoria que luta contra as "máquinas de guerra". Assim, o hagiógrafo apresenta o valor superior da sabedoria comparado com as armas (poder, força humana violenta).
É notório que o Antigo Testamento não proíbe o uso de armas para defesa e conquista do seu povo. Os relatos bíblicos apresentam vários episódios permeados pelo uso da violência armada (Cf. Js 6; Jz 8,13-21; 1Sm 4,1-11; 2Sm 8,1-13). No entanto, o “Decálogo” (dez mandamentos) proíbe o assassinato: “Não matarás” (Ex 20, 13).
Para muitos estudiosos das línguas bíblicas, a tradução mais adequada do quinto mandamento seria: “Não assassinarás”. Os verbos assassinar e matar têm significados diferentes no Antigo Testamento. Vejamos:
a) ASSASSINAR (Ratsach): É quando se tem a intenção de tirar a vida, quando o crime é premeditado (Cf. Gn 4,8);
b) MATAR (Muwtn): Quando é um acidente e não tem intenção de tirar a vida do outro (Cf. Dt 19,5).
A partir dessa distinção do significado de assassinar e matar, com base nos textos bíblicos, é possível compreender com clareza o tema da legítima defesa. Em Êxodo 22,2-3, lemos: "Se um ladrão for surpreendido arrombando um muro e sendo ferido morrer, quem o feriu não será culpado de sangue ..." Nota-se que não existia a intenção de matar. Quem surpreendeu o ladrão apenas teve a intenção de ferir, a morte poderia ter ou não ocorrido. Se o ladrão tivesse morrido teria acontecido um acidente. Segunda parte : "Se, porém, fizer isso depois de ter nascido o sol, quem o ferir será culpado de sangue" . Por que é culpado se for depois do nascer do sol? Durante a noite fica difícil discernir se o intruso é um assassino ou ladrão. Porém, à luz do dia, quem feriu torna-se culpado, porque teria outras possibilidades de defesa. Diante do conflito é mais prudente se esconder, fugir do que reagir com violência (Cf. Pv 22,3; 27,12). Caso contrário, a defesa torna-se vingança, crime de assassinato.
A compreensão da legítima defesa, que é um direito natural, deve ser feita a partir do Novo Testamento, principalmente levando em consideração os ensinamentos de Jesus. O “Príncipe da Paz” ensinou os caminhos do amor, da paz, da não violência: “felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” ( Mt 5, 9). Ele repreendeu a Pedro por ter usado uma espada para ferir o soldado, “pois todos os que pegam a espada pela espada perecerão” (Mt 26, 52).
Em Lc 22, 35-38, Jesus manda que seus apóstolos comprem uma espada. No entanto, esse texto não pode ser entendido no seu sentido literal, pois haveria uma contradição com os ensinamentos de Jesus. A espada do cristão é a Palavra, seu escudo é a fé, seu capacete é a salvação (Cf. Ef 6, 16-17). Não existe nenhuma passagem do Novo Testamento que indica que os cristãos reagiram com armas diante das perseguições dos Romanos ou que faça uma apologia ao uso de armas para legítima defesa. Pelo contrário, perseguidos, maltratados, feridos pelos seus opositores, os cristãos entregaram suas vidas sem nenhuma resistência armada.
O uso da espada, no cristianismo, começou com a união da Igreja com o Império Romano. Até os dois primeiros séculos, os cristãos eram proibidos de participarem do exército. Os que eram batizados, sendo soldados, tinham que deixar o exército romano. "Uma cuidadosa análise de toda a informação disponível mostra que, até o tempo de Marco Aurélio (121-180), nenhum cristão tornou-se soldado; e nenhum soldado, depois de tornar-se cristão, permanecia no serviço militar" (E.A. BARNES, 1947, p. 333). No cristianismo, a paz e a segurança não são conquistadas pelas forças das armas e da violência. A paz é fruto da justiça, da solidariedade. A segurança da sociedade é de responsabilidade da autoridade constituída. Compete a essa autoridade, quando necessário, o uso da espada para punir quem pratica o mal e fazer justiça (Cf. Rm 13, 4-5).
Hoje, nos deparamos com inúmeros “cristãos armamentistas”. Uma realidade que não deve ser motivo de tanta estranheza, pois, no primeiro século do cristianismo, religiosos judeus e alguns discípulos de Jesus acreditavam no poder das armas como solução para os problemas sociais. No tempo de Jesus, existia um grupo religioso entre os judeus, os zelotes. Na concepção dos zelotes, o messias deveria ser um guerreiro que lutasse com armas. No grupo dos apóstolos, Simão era conhecido como o zelote (Cf. Mc 3,18). Entre os apóstolos de Jesus alguns pensavam como os zelotes. Jesus não correspondeu aos desejos dos zelotes. Entra em Jerusalém não como um rei-guerreiro montado em um cavalo, mas sim como um rei humilde, montando em jumento (Cf. Mt 21, 1-11). Diferente dos zelotes, Jesus não desejava construir um reino terreno. "Jesus respondeu: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue às autoridades dos judeus. Mas agora o meu reino não é daqui" (Jo 18,36-37). O reino de Jesus não é dos acreditam na força das armas, dos poderosos desse mundo que usam do poder armamentista para conquistar, dominar. Para quem acreditava em uma libertação através das armas e não da obediência ao Pai, o Mestre fez a seguinte correção: “Mas Jesus disse a Pedro: Guarde a espada na bainha. Por acaso não vou beber o cálice que o Pai me deu?" (Jo 18,11). Jesus recriminou o apóstolo que usou de violência. Sua arma não era a espada, mas sua obediência ao Pai. Suas armas eram: amor, humildade e paz. São essas as armas que os seguidores de Jesus devem ter.
O discurso de muitos “religiosos armamentistas” (cristãos das mais diversas denominações religiosas), que fazem apologia à posse e ao porte de armas com o argumento de que são úteis para o direito à legítima defesa não tem coerência com a mensagem cristã. O direito à legítima defesa jamais pode ser usado para legitimar o uso de arma ou para tirar a vida de alguém na ocasião em que o indivíduo achar conveniente. A legítima defesa é justificável quando todos os recursos forem esgotados. Portanto, a morte do agressor só é justificada em situações extremas para preservar a própria vida ou salvar a vida do inocente. "Quem defende sua vida não é culpável de homicídio, mesmo se for obrigado a matar o agressor: Se alguém, para se defender, usar de violência mais do que o necessário, seu ato será ilícito (destaques nossos). Mas, se a violência for repelida com medida, será lícito... E não é necessário para a salvação omitir este ato de comedida proteção para evitar matar o outro, porque, antes da de outrem, se está obrigado a cuidar da própria vida" (CIC, n.2264).
Recentemente, o papa Francisco fez uma declaração criticando o uso da força das armas. O líder da Igreja Católica Romana pediu a proibição das armas para que o mundo tenha paz e não conviva “com medo da guerra”. “Pessoas que fabricam armas ou investem na indústria armamentista estão sendo hipócritas se chamarem a si próprias de cristãs”, disse o Papa Francisco. Continua o papa: “Nós realmente queremos a paz? Então, vamos banir as armas para não ter que viver no medo da guerra”.
Diante do que foi refletido, infere-se que a posse e o porte de armas não são escolhas adequadas para o cristão. A segurança dos que acreditam em Jesus e sua legítima defesa não se encontram na força das armas, mas na disponibilidade para promover uma sociedade mais justa e fraterna. A violência, a guerra e o desejo de extermínio do outro têm suas origens na ausência de amor no coração da humanidade, gerando egoísmo, desrespeito, desigualdade. O caminho mais prudente consiste em compreender que “mais vale sabedoria que armas” (Ecl 9, 18a), que mais vale “guardar a espada” do que “apontá-la” como única solução para a defesa da vida.
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Lúcio Rufino Pinheiro

segunda-feira, 25 de junho de 2018

QUEM ERA A BESTA DO LIVRO DO APOCALIPSE?

A Besta que o autor do livro do Apocalipse faz referência no capítulo 13 é interpretada por muitos religiosos fundamentalistas como um grande líder religioso cujo poder abrange o mundo inteiro. Não poucas vezes, os “irmãos separados” identificaram a Besta como sendo o bispo de Roma, o papa. Existe fundamento para essa identificação? Para responder essa pergunta, convém um entendimento do contexto no qual o livro do Apocalipse foi escrito.
O livro do Apocalipse, segundo estudiosos conceituados, foi concluído por volta do ano 95 d.C., no reinado de Domiciano, imperador romano que mandou executar seu primo Flávio Clemente por ser cristão. Outras partes do livro, foram escritas no tempo do imperador César Nero, antes do ano 70 d.C.
O contexto maior no qual o livro do Apocalipse foi escrito é de perseguição do império romano a Igreja Cristã, representada pela Mulher perseguida (ἐδίωξεν -edioxen) pelo Dragão (Cf. Ap 12,13). Os cristãos, no período das perseguições, passaram por uma “grande tribulação (θλίψεως” τῆς μεγάλης) (Cf. Ap 7,14; 1,9; 2,9; 2,10;2,22) que resultou em exílio (Cf. Ap 1,9 ), prisões e mortes (Cf. Ap 13,10).
Diante desse cenário de perseguição, o autor escreveu o livro do Apocalipse com a finalidade de animar os cristãos para perseverarem no testemunho até as últimas consequências (Cf. Ap 12,11). Os que permanecerem firmes receberão a “coroa da vida” (Ap 2,10), serão considerados felizes (Cf. Ap 1,3; 14,13; 16,15; 19,9; 20,6). A mensagem do Apocalipse é de esperança. Virá um tempo novo, “um céu novo e uma nova terra”, sem dor, sofrimento e morte (Cf. Ap 21, 1-4), pois, o maior poder não é do imperador, mas do Cordeiro (Cf. Ap 5,13 ). Ele assumirá o trono (Cf. Ap 21,5). Com o Cordeiro, os justos e fiéis participarão do seu reinado (Cf. Ap 20, 4-5).
Como não era possível em tempos de perseguição falar de forma clara, o autor transmitiu sua mensagem aos cristãos usando o gênero apocalíptico, repleto de imagens e símbolos. No gênero apocalíptico, animais, como a Besta, geralmente são associados ao homem.
Vejamos o que diz Ap 13 sobre a Besta, fazendo uma análise de alguns versículos:
a) “Vi então uma Besta que subia do mar. Tinha dez chifres e sete cabeças” (...) (v.1).
A Besta (θηρίον ) surge do mar. Na Bíblia, o mar aparece muitas vezes como símbolo do mal, lugar dos monstros estranhos (Cf. Sl 74,13-14; Jó 40,15). Representa forças negativas que se opõem a Deus (Cf. Jo 7,12). A Besta, portanto, é portadora do mal. Chifres e cabeça são símbolos explicados em Ap 17, 9-12. Os “dez chifres” representam reis que não receberam o poder de governar (Cf. Ap 17,12) e que se revoltam contra o domínio do império (Cf. Ap 17,16). As “sete cabeças” são os “sete montes” (Cf. Ap 17, 9a), colinas de Roma, capital do império. Representam ainda “sete reis” (Ap 17,9b), imperadores romanos. Nota-se, portanto, que o poder da Besta não é religioso, mas político.
b) “Aqui é preciso discernimento! Quem é inteligente calcule o número da Besta, pois é um número de homem: seu número é 666” (ἑξακόσιοι ἑξήκοντα ἕξ ) (Ap 13,18).
Nas línguas antigas, como hebraico e grego, as letras do alfabeto tinham valores numéricos. Por exemplo: Lúcio em grego é "λούκιος ".  Transformando cada letra desse nome em numerais,  λ (30) + ο (70) + ύ (400) + κ (20) + ι (10) + ο (70) + ς (200) obteremos o seguinte resultado: 800. Quase o número de Jesus (ἰησοῦς) que é 888. 
Assim, foram levantadas várias hipóteses sobre o “número da Besta” a partir de vários cálculos. Vejamos algumas hipóteses:
a) Os imperadores romanos recebiam o título de César, em grego, kaísar (καίσαρ). Além desse título, os imperadores se julgavam deuses. Assim, feito o cálculo com o título César-Deus (καίσαρ-θεός) καίσαρ-θεός = κ (20 ) + α ( 1 ) + ί (10 ) + σ (200 ) + α (1 ) + ρ ( 100 ) + θ (9 ) + ε ( 5) + ό (70) + ς ( 200 ) é possível chegar ao seguinte resultado: 616. Segundo os defensores dessa teoria, com base em um fragmento antigo do livro Apocalipse, encontrado em 1985, hoje conservado no museu de Oxford (Inglaterra), o número que se encontra no texto é 616. Existem ainda dois pequenos manuscritos gregos do Apocalipse que têm 616. Santo Irineu (140-202) em seus escritos faz referência à existência de duas variantes nos códices do Apocalipse, 666 e 616.
b) Transformando o nome César Nero do grego para o hebraico, somando os valores das consoantes do seu nome: Q: qof: (100) + S: samekh (60) + R: resh (200) + N: num (50) + R: resk (200) + V: vav (6) + N: nun (50) o resultado final será o número 666. Essa teoria é defendida nas notas explicativas das Bíblias Católicas.
c) O número sete na Bíblia significa plenitude, totalidade, perfeição. Seis na Bíblia indica imperfeição. O número 666 acentuava que o império da Besta era fraco, inferior, imperfeito, vulnerável.
Os argumentos acerca do número da Besta do Apocalipse são diversos. Porém, o argumento mais frágil e sem relação com o contexto bíblico de Apocalipse 13 é aquele que associa o número da Besta ao líder da Igreja Católica Apostólica Romana, o papa. Uriah Smith, Adventista do Sétimo Dia, em sua obra, “As profecias do Apocalipse”, atribuiu o número da Besta ao papa. Segundo o mesmo, o representante da Igreja Católica usava na sua tiara o seguinte título em latim: “VICARIUS FILII DEI” (Vigário do Filho de Deus). A transformação de algumas letras desse título em latim para numerais romanos fez com que Smith chegasse ao número 666. A teoria de Smith, amplamente divulgada por muitos religiosos anticatólicos, não tem sustentação pelas seguintes razões: O papa não usa o título Vigário do Filho de Deus e o texto de Apocalipse 13,18 diz que era “um número de homem” e não um título.
Portanto, quem era a Besta do livro Apocalipse? Conforme os argumentos apresentados, podemos afirmar que se tratava de “um imperador romano” que perseguia os cristãos no primeiro século. Seu número poderia indicar que seu poder era limitado, frágil. Qualquer interpretação que anule essa compreensão não tem coerência com o texto bíblico. “É preciso discernimento” (Ap 13,18) para não divulgar doutrinas falsas baseadas em interpretações subjetivas de textos bíblicos de difícil compreensão.

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Lúcio Rufino Pinheiro

sábado, 23 de junho de 2018

TRADUÇÃO BÍBLICA E SEUS EQUÍVOCOS


Uma boa tradução de um texto bíblico é fundamental para compreendemos e interpretarmos a Palavra de Deus. Examinaremos o texto bíblico de Apocalipse 22,14 levando em consideração uma tradução de tradição Católica e outra de tradição Protestante.
A tradução Católica (Bíblia de Jerusalém): "Felizes os que lavam suas vestes para terem poder sobre a árvore da Vida e para entrarem na cidade pelas portas".
A Tradução Protestante (Almeida Corrigida e Revisada): Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas”.
As duas traduções citadas aprsentam diferenças. Na primeira, Católica, temos a expressão: “Os que lavam suas vestes”. Na segunda tradução, Protestante, lemos: “Guardam os seus mandamentos”.
Aparentemente essa diferença de tradução parece não ter muita importância. No entanto, essa mudança gera uma polêmica perincipalmente entre os grupos religiosos que defendem que a lei de Moisés não foi abolida e, que, portanto, os cristãos têm obrigação de seguir todos os mandamentos entregues para Moisés, de modo especial à guarda do sábado.
 A diferença entre as palavras “vestes” e “mandamentos” no grego é uma questão de letras iniciais.  Vestes no acusativo plural é “στολασ” (stolas) e mandamentos é “εντολασ” (entolas) sendo a diferença de um “s” e de “en” nas respectivas palavras.
Por que essas diferenças de traduções? A diferença deve-se a alguma troca do copista que certamente equivocou-se ou “cochilou”.
No texto grego que tenho acesso, a palavra grega é εντολασ (mandamentos). Não é facil saber qual o termo no original, porque o que existem são cópias divergentes em alguns aspectos.
O termo “στολὰς” aparece em mais três textos do apocalipse (7,9; 7,13, 7,14) e é traduzido por vestes. “ἐντολας” aparece 18 vezes no NT (Mt 19,17; Mc 10,19; Lc 18,20; Jo 11,57; Jo 14,15; Jo 14,21; Jo 15,10 9(2x); Cl 4,10; 1Jo 2,3; 1Jo 2,4; 1Jo 3,22; 1Jo 3,24; 1Jo 5,2; 1Jo 5,3; 2Jo 1,6; Ap 12,17; Ap 14,12) e é traduzido por mandamentos. Em Ap 16,15 que diz: “Feliz aquele que vigia e conserva suas vestes, para não andar nu e deixar que vejam avergonha” e Ap 3,4.18 o termo grego que aparece é “ἱμάτια” , traduzido por vestes ou mantos.
Vejamos algumas Traduções Católicas sobre o texto em questão:
Septuaginta transliterada: entolas (mandamentos)
Septuaginta + NT : "στολὰς " (vestes)
Vulgata Latina – stola (vestes)
Neo vulgata latina: stola (vestes)
King James – Mandamentos (commandments)
Bíblia Latinoamericana – vestes (ropas)
Bíblia Ave Maria (vestes)

A diferença de todo texto bíblico deve-se ao texto fonte do qual foi feita a tradução. Nem sempre se trata de intencionalidade para se adequar aos interesses doutrinários, mas de um equívoco do copista ou tradutor.

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Lúcio Rufino Pinheiro

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O MEIO-DIA DA MINHA E DA SUA VIDA


Ao recordar os belos momentos da minha infância querida nas terras interioranas potiguares, sou tomado pela lembrança da hora do meio-dia, quando junto com meus amados irmãos, sentávamos à mesa para saborear aquela comida deliciosa, temperada com amor e carinho, que só a mãe sabia preparar. Velhos tempos, belos dias.
Na hora do meio-dia, gostava de escutar o cantar do vim-vim, pássaro tão conhecido na minha região. Quando esse pássaro cantava e nos encantava, era comum respondermos: “se for bom venha, se for ruim vá embora”, pois, segundo a tradição de nossos pais, o seu canto anunciava que uma visita estava para chegar.
Depois de mais de vinte anos que não escuto o canto do vim-vim, pois não há espaço para ele na grande cidade onde moro, ou porque o mesmo já se encontra entre aqueles pássaros ameaçados de extinção, redescubro um novo sentido do meio-dia. Esta descoberta seu deu a partir da meditação da Sagrada Escritura. Nela, descobri que o meio-dia não significa simplesmente a hora da visita de alguém, mas o tempo sagrado do encontro do homem com Deus. Ele é a visita ilustre que possibilita ao homem entrar numa relação de diálogo e de intimidade, e, ao bater na porta do seu coração, espera encontrar hospitalidade.
O presente texto tem como finalidade apontar um sentido bíblico e antropológico acerca do meio-dia.

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Lúcio Rufino Pinheiro

O MEIO-DIA DA LITERATURA EXTRA-BÍBLICA


O meio-dia tornou-se tema das manifestações artísticas do homem nas mais diversas épocas e culturas. Os cineastas incluíram em seus roteiros, os pintores expressaram a sua beleza, os músicos fizeram do meio-dia melodia, os poetas incluíram-no nas linhas dos seus versos. Recordemos o poema de Alberto Caeiro, quando trata do meio-dia numa perspectiva religiosa:
“Num meio-dia de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe” (Apud: PESSOA, 2008, p.25)
Outro poeta que declamou sobre o meio-dia foi Olavo Bilac, um dos mais exímios poetas brasileiros. Em seu poema “Meio-dia”, dá todo um rico significado do meio-dia relacionado-o aos aspectos: religioso, antropológico, cultural, cosmológico e social:
“Meio-dia. Sol a pino.
Corre de manso o regato.
Na igreja repica o sino;
Cheiram as ervas do mato.
Na árvore canta a cigarra;
Há recreio nas escolas:
Tira-se, numa algazarra,
A merenda das sacolas.
O lavrador pousa a enxada
No chão, descansa um momento,
E enxuga a fronte suada,
Contemplando o firmamento.
Nas casas ferve a panela
Sobre o fogão, nas cozinhas;
A mulher chega à janela,
Atira milho às galinhas.
Meio-dia! O sol escalda,
E brilha, em toda a pureza,
Nos campos cor de esmeralda,
E no céu cor de turquesa...
E a voz do sino, ecoando
Longe, de atalho em atalho,
vai pelos campos, cantando
A Vida, a Luz, o Trabalho” (Apud: Henriqueta, 2001, p.70)
O meio-dia para os poetas citados tem forte conotação experiencial. Está relacionado aos acontecimentos cotidianos da vida, como: experiência religiosa, trabalho, a relação com a vida e a natureza.

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Lúcio Rufino Pinheiro


O MEIO-DIA E OS PADRES DO DESERTO


A literatura também se preocupou em escrever e descrever sobre o meio-dia. Encontramos a interpretação do sentido do meio-dia nos Padres do Deserto. Interpretando o salmo 91,6 que se refere a “peste que caminha na treva” e “epidemia que devasta ao meio-dia”, os Padres do Deserto associaram ao que denominaram de “demônio do meio-dia”
Para Padres do Deserto o demônio do meio-dia era o sentimento da acídia (akidía). Este termo grego pode ser traduzido como: desânimo, tédio, desengano, desgosto pelas coisas espirituais, abatimento, cansaço. A acídia provoca desestabilidade, inconstância, aversão a tudo que se encontra ao seu redor, murmuração e a perda da alegria de viver. A acídia atingia o asceta quando este, depois de ter sentido várias vezes a consolação divina, passava por uma sensação de inutilidade, pondo em dúvida todo o seu itinerário espiritual percorrido. Às vezes o “demônio do meio-dia” incitará esse homem casto e sóbrio a “recuperar o tempo perdido” na área da sensualidade ou das bebidas mais pesadas” (LELOUPE,2003, p.95).
“O demônio do meio-dia é o demônio que reúne todos os demônios. É uma das tentações mais radicalmente sutis: apresenta-se, passado o primeiro entusiasmo e dinamismo do caminho espiritual, como cansaço e futilidade. A oração parece inútil e improdutiva; a prática da misericórdia fraterna parece tão longínqua como antes, encadeada aos defeitos do temperamento e do egoísmo. As paixões parecem reaparecer constantemente, sob novas formas. O espírito, cansado, insensível e opaco. A simbologia mística usou inumeráveis símbolos para expressar essa experiência clássica da maturidade humana e espiritual: a secura, a aridez, o deserto, o êxodo, a noite... Em tudo isso, a tentação fundamental consiste em ir recuperando, pouco a pouco e insensivelmente, o que foi entregue a Deus, no começo, pleno de generosidade e numa entrega total” (Sophia Perennis, 2011)
João Cassiano, um dos famosos monges do Deserto, escreveu sobre o demônio que atingia os monges na hora sexta causando-lhe vários malefícios, associando-o a preguiça e a tristeza:
“Nossa luta é contra o sexto espírito de preguiça, que é ligado espírito de tristeza e ele funciona, e isso é um terrível e pesado demônio, sempre pronto a dar a batalha para os monges. Recai sobre o monge na sexta hora, causando-lhe angústia e calafrios, causando ódio em direção ao lugar onde ele está e contra os irmãos que vivem com ele e sobre seu trabalho e sua leitura das Escrituras Sagradas. Ele também sugeriu a ideia de um outro lugar e a ideia de que se você não mudar, tudo vai fadiga e perda de tempo. Além disto, você terá a fome ao redor do meio-dia, como a fome não acontece após três dias de jejum, de uma viagem longa ou fadiga extrema. Depois de vários pensamentos irão surgir, como que nunca consegue se livrar deste malou de peso, caso ele não freqüentemente visitam este irmão, para ganhar uma vantagem, é óbvio, ou visitando os doentes. Quando o monge não está vinculado por estes pensamentos, então mergulhado em um sono profundo, tornando-se ainda mais violento e forte sentimento contra ele, e não se assuste se não for através da oração , evitando o lazer com a meditação da palavra divina e resistência à tentação. Porque se esse espírito não encontrar o monge defendida por essas armas, acerta com suas flechas e torna-se instável, agitado, ele se torna lento e preguiçoso, induzindo-o a viajar vários mosteiros, não se preocupando, não procuram nada além de lugares onde comer e beber bem. Porque o espírito de preguiça só pensa no presente ou no entusiasmo que vem dessas coisas. E, neste ponto, o diabo envolve em assuntos mundanos, e pouco a pouco nos envolvemos com essas ocupações perigosas, até que o monge rejeita completamente seus votos monásticos” (Apud: SOPHIA PERENIS,2011 ).

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Lúcio Rufino Pinheiro

O MEIO-DIA E AS CIÊNCIAS HUMANAS


As reflexões dos Padres do Deserto acerca do demônio do meio-dia não ficaram num passado distante. Os escritores e as ciências humanas dos nossos tempos desenvolveram todo um pensamento, associando o demônio do meio-dia às crises pelas quais enfrentam muitas pessoas.
O escritor americano, Andrew Solomon, em sua obra “o demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão” é um exemplo da atualização, na modernidade, do que os Padres do deserto chamavam de o demônio do meio-dia. Em sua obra, Andrew, a partir de sua experiência pessoal trata sobre o mal da depressão, conhecida como a doença do século. A depressão, como sugere o título do seu livro, é associada pelo autor como “o demônio do meio-dia”. O modo como Andrew descreve a depressão aponta as mesmas características da acídia, o demônio do meio-dia, do qual se referem os Padres do Deserto. Afirma o autor:
“A depressão é a imperfeição no amor. Para podermos amar, temos que ser criaturas capazes de se desesperar ante as perdas, e a depressão é o mecanismo desse desespero. Quando ela chega, degrada o eu da pessoa e finalmente eclipsa sua capacidade de dar ou receber afeição. É a solidão dentro de nós que se torna manifesta, e destrói não só a conexão com os outros, mas também a capacidade de estar apaziaguadamente apenas consigo mesmo. [...] Na depressão, a falta de significado de cada empreendimento e de cada emoção, a falta de significado da própria vida se tornam evidentes. O único sentimento nesse estado despido de amor é a insignificância” (SOLOMON, 2002, p.15)
A depressão é o demônio do meio-dias dos nossos dias. Ela tem atingindo as mais variadas classes sociais, provocando nos dominados um “azedume” pela vida. No depressivo, a pulsão da vida acaba dando lugar ao desejo pela morte. Sua vida torna-se uma noite escura na claridade do meio-dia.
“Uma leitura moderna diz que o demônio do meio-dia não é um bicho do inferno, mas é um sofrimento insidioso, específico de uma época em que faltam cantos escuros.
Ele é nossa própria tristeza, a depressão e o tédio produzidos por um mundo com poucas sombras e poucos mistérios” (CALLIGARIS, 2010).
A psicanálise e psicologia interpretam o demônio do meio-dia como um estado de crise em que o homem passa na metade de sua vida (40 anos). A “crise da meia idade” faz com o indivíduo passe a perguntar sobre si mesmo e pelo sentido de sua vida. Para Jung a crise da meia idade se dá na segunda fase do processo de individuação, ou seja, quando uma pessoa encontra o seu si mesmo (self) que o distingue dos demais.
Jung assim define a individuação:
“Individuação significa tornar-se um ser único, na medida que por “individualidade” entendemos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando que nos tornamos nosso próprio Self. Podemos traduzir individuação como ‘tornar-se si mesmo’ ou ‘orealizar-se do si mesmo’ (Apud: SAINAI, 2000, p.74).
Segundo os comentadores de Jung para o mesmo o que determina a crise da meia idade é o conflito. Para Jung “o conflito aparentemente insuportável é prova de que sua vida está correta. Uma vida sem contradição interior é apenas meia vida ou então uma vida no Além, destinada apenas aos anjos” (Apud: SHARP, 1988, p.14).
Na sua crise da meia-idade, o homem desce em si mesmo, conhece a sua sombra interior, todos os sentimentos vêem á tona e suas certezas são postas em questão.
“Na meia-idade, o retrato de Dorian Gray[1] sai do armário. Com ele saem todos os demônios relegados para a sombra durante a primeira parte da nossa vida. Sentimentos proibidos de impotência e raiva; medos secretos de não sermos atraentes e de sermos rejeitados; fantasias encobertas de desejos sexuais; devaneios privados imbuídos de criatividade; perguntas não respondidas sobre o significado e o propósito das coisas. É todo um mundo de interrogações que nos assalta e nos persegue, até que nos voltamos para encarar a fera de frente” (A SOMBRA).
A descoberta da sombra é positiva, pois permite conhecer a si mesmo e contribui para que possamos encontrar a unificação consigo mesmo, com o outro e com Deus. Segundo Enrique Martinez, em sua obra “A face oculta”,
“embora doloroso, o encontro com a própria sombra é uma graça, um dom. Porque graças a ela avançaremos na verdade e na luz sobre nós mesmos, e, em última análise, em amor e unidade com todos. Podemos vê-la como uma ajuda amistosa, e como tal, dar-lhes a boas-vindas” (2008, p.17).
Conhecer a sombra que existe dentro de nós mesmos, e que muitas vezes nos impede brilharmos como o sol do meio-dia, constitui um caminho de humanização. Afirma Martinez:
“A sombra nos humaniza e, ao pôr-nos diante de nossas próprias limitações, faz-nos mais humildes e nos liberta. Daí decorre que o trabalho com ela seja fonte de liberdade e de delicado respeito pelos outros. Por tudo isso, a sombra é um guia necessário ao caminho de toda a pessoa que deseja crescer na verdade e na liberdade. Para sentir-nos concretos, temos de passar pelo lugar obscuro que há em nosso interior e fazer as pazes com as trevas se queremos chegar a totalidade” (ibdem, 2008 p.17).
A totalidade da qual trata Martinez, pode entendida numa linguagem cristã, como a paz do espírito, harmonia interior. Até chegarmos a essa plenitude espiritual se faz necessário fazer um longo e ardoroso encontro consigo mesmo para que possamos conhecer, assumir, trabalhar e redimir todo o que envolve o nosso mundo interior. A paz interior é fruto de um duro combate com os nossos demônios interiores no meio-dia da nossa existência. Quem foge desse combate continuará sendo movido sombra do seu individualismo, do egoísmo, impossibilitará contemplar sol da verdade sobre si mesmo.

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Lúcio Rufino Pinheiro

[1] Dorian Gray é o personagem do romance inglês, O Retrato de Dorian Gray, do escritor Oscar Wilde. Dorian era um rapaz de uma beleza exuberante. Seu amigo, Basil Hallward fez uma pintura belíssima de Dorian. Ao contemplar o seu retrato, Dorian deseja viver sempre jovem e diz: “Eu ficaria velho, aniquilado, hediondo! ... Essa pintura continuará sempre fresca. Nuca mais será vista mais velha do que hoje, neste dia de junho...Ah! Se fosse possível mudar os destinos; se fosse eu quem devesse conservar-me novo e se essa pintura pudesse envelhecer! Por isso eu daria tudo!...Não há nada no mundo que eu não desse... Até minha alma!...” (WILDE, 2006, pp.64-65). Por trás de sua beleza escondia uma personalidade egoísta e má. Toda a sua maldade refletia no quadro, que a cada ação sua mostrava o mostro que ele se tornara.